sábado, 24 de dezembro de 2011

secreto

não sei se é normal, te ver assim em todos os lugares. sei que é natural, amor assim. parecido, o mundo já deve ter visto, mas é estranho vindo de mim e partindo em direção a você. por que logo você? não sei o que temos a ver. claro que sua beleza, aos meus olhos, é incomparável, e seu jeito é único. mas nos vemos apenas uma vez, e suas fotos já não saem da tela do meu computador. as poucas frases que trocamos, insistem em ecoar pela minha cabeça, que as distorcem sutilmente, mentindo pra mim e convencendo-me que as suas falas indicavam que você estava afim de mim, tão afim que não conseguiria pensar em outra coisa, além de uma desculpa para me ver novamente. mas no fundo, eu sinto que esse é o meu desejo, eu que quero te ver, eu que penso em você a todo momento, eu que quero que você pense isso também.

você corre desesperada, e pula de abraço em abraço, de amor em amor, como se cada noite fosse apenas continuação de uma noite anterior. e a unica lei, é que seu coração não pode parar, muito menos a diversão. seu sorriso é infinito. não é o sorriso mais lindo do mundo, mas com certeza foi o que mais me encantou. não costumo ser tão melancólico, nem tão sonhador assim. costumo ser muito conformado. mas não consigo me tranquilizar com a ideia de cabelos tão fascinantes, estarem sob cuidados de outras mãos que não as minhas. não quero imaginar que outra pessoa possa pensar tanto em alguém como eu tenho pensado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

distância

eu penso em você no final da tarde, quando costumo ler historias de romance. eu penso em você a noite, quando vejo um clichê americano que tenta me dizer o quanto eu seria feliz se estivéssemos juntos. eu penso em você durante toda a madrugada, no anseio de um sinal de vida seu, a espera de um remédio que me cure essa saudade, ou de doses mais fortes desse contraditório veneno, para que a loucura me tome por completo de uma vez por todas.

o sol já vem nascendo. um novo dia vem batendo a minha janela e eu só penso no quanto toda a a natureza é bela e cruel. fez rios colossais, montanhas gigantescas, ondas perfeitas. céu no estio pros meus domingos ensolarados e chuva pros vazios dentro do meu peito. mas a maior, e a mais dolorida criação, ela fez propositalmente pra mim. fez parecer acidente, mas no fundo eu sabia, que tamanha coincidência no mundo nunca há de existir. você foi feita pra mim. e não há quem duvide. eu penso em você o tempo todo, e tenho pensado que você estaria muito melhor aqui do meu lado!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

jogo fácil, jogo rápido

chocolate quente e filmes da sessão da tarde era o gosto que tinham os nossos encontros, tão desajeitados e acomodados no sofá da sua casa, ríamos das roupas que sua irmã mais nova colocava e desfilava como se fosse uma modelo, de apenas 5 anos.

a chuva era a primeira certeza do dia, em seguida o despertar. era dificil distinguir dia e noite, cedo e tarde, o tempo era igualmente nublado por vinte e quatro horas. a certeza subsequente era que estaríamos juntos, não importa o diluvio que fizesse em frente a minha casa, sempre dava um jeito de ir te ver, agasalhado e protegido contra o resfriado.

não forçamos a alegria, não forçamos nada. entre as paredes da sala de televisão, não importava qual a programação ou o tempo la fora, pra nós era sempre final de campeonato na tv e o sol mais bonito de todos lá fora, porque pra nós dois, cada dia daquela férias que passamos juntos, era o dia mais feliz das nossas vidas. quando ele acabava, vinha outro "dia mais feliz das nossas vidas".

estávamos dispostos e satisfeitos. motivados a nos modelar um ao outro, tantono jeito, quanto nos defeitos. ajustar de um lado para consertar em outro. eramos confidentes e amantes, sorridentes e cantantes. eramos o sol e todas as constelações, eramos tudo um para o outro.

os dois sabiam da necessidade de se aproveitarem. o inverno era a unica estação que eles tinham para se ver, e ele estava chegando ao fim.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

não é por acaso

então ela desmoronou. as circunstâncias não tomaram conhecimento de sua grandiosa majestade. formosa e caprichosa, a linha do tempo foi subestimada e desmontada em vários pedaços que se perderam e até se confundiram. a situação que amansou a fera e transcedeu a credibilidade da realidade era única. coincidência nunca existiu, aparências sim, mas não é o caso. elas não se pareciam. elas eram idênticas. o que é de se esperar quando se tratam de mãe e filha, mas nada no universo era tão assustador quanto essa preciosa semelhança.

o universo e seus acontecimentos, que aleatorios se cruzam e colidem como meteoros que invadem atmosferas mil, falecendo em um brilho único. único como a sensação que me vinha aos olhos, toda vez que as estrelas dos meus globos oculares colidiam o seu rosto minuciosamente perfeito. tão linda, tão valiosa, tão igual. dois cometas que entraram na minha atmosfera. o primeiro há mais de 30 anos atrás. e outro agora. mas esse não passou e espalhou cores no céu; ele veio de encontro a superfície, sem pena. o universo desviou aquele astro de outras galaxias distantes e arremessou direto em minha direção.

não conseguia suportar a dor da morte. não conseguia sustentar em minhas costas, dores tão profundas. e aquele pequeno suspiro de vida não me deixava respirar como antes, fazendo com que meu peito apertasse e torcesse de um lado para outro, me fazendo suplicar para não me afogar em meu próprio lamento. choro a saudade e choro a dor que aquele rosto me traz. talvez os astros maiores tenham conspirado e a trazido de volta para me atormentar. enquanto uma estrela apagava-se, a outra acabava de nascer. como se todo o brilho se transferisse de uma pra outra, e nessa confusão, o brilho das estrelas em meus olhos se perdeu em algum lugar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

skinny love - bon iver

Eu digo ao meu amor para abandonar tudo.
Cortas todos os laços e me deixe cair.
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Bem no momento dessa exigência exagerada.

Eu te disse pra ser paciente.
Eu te disse pra ficar bem.
Eu te disse para ser ponderada
Eu te disse para ser gentil.
De manhã eu estarei com você,
mas será um "gentil" diferente
E eu estarei segurando todos os bilhetes,
e você estará assumindo todas as multas


Eu te disse pra ser paciente.
Eu te disse pra ficar bem.
Eu te disse para ser ponderada
Eu te disse para ser gentil.
Agora todo seu amor foi desperdiçado?
Então quem diabos fui eu?
Agora deixo a arrogância
E no final de todas suas linhas

Quem amará você?
Quem lutará?
Quem cairá muito para trás?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

sem ar/rependimento

tomaria de egoista o controle que rege toda a linha do tempo, e colocaria o futuro do universo inteiro em minhas maos. se eu tivesse essa chance, não estaria aqui escrevendo linhas tão tortuosas, muito menos chorando lágrimas tão impiedosas. apagaria os erros que cometi, mesmo não tendo certeza deles, afinal só saberia mesmo se seria uma completa tolisse se eu pudesse voltar atras e permanecer do seu lado, ao invés de fugir.

falei antônimos do que senti, senti atônito o que vivi. escutei as musicas e reli as cartas que falavam de nós dois, relembrei a sensação dos meus pés descalços cheios de areia pisando sobre o chão brilhante da nossa casa. e como esquecer? tudo isso vem me atormentando como uma enxaqueca, daquelas de sentir sob os olhos que te faz torcer pra que o proximo dia chegue depressa.

sem pressa. o sono não vai chegar. os sentimentos vêm em correntezas e eu cansei de nadar contra. não quero me sentir arrependido.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

contracorrenteza

figuras de linguagem não conseguiriam explicar a vocês o sentimento que arde em mim. viciei o meu coração com tristezas maiores para amenizar contratempos menores, e agora estou colhendo o resultado dessa doença. vocês que me lêem na surdina, agora conseguem me ver com as mãos sujas e com o rosto completamente suado. eu tentei correr, eu tentei sair, eu tentei fugir disso tudo. mas agora eu desisto. vou lavar minhas mãos, enxugar o meu suor e vou parar de nadar contra essa correnteza. vou parar de tentar me levantar porque eu cansei de cair e não sair do lugar. não sei o que aconteceu há tanto tempo que me prende a essa mesma situação, então eu resgato em minha memória algo que vocês, leitores, nunca entenderão, ou talvez sentem o mesmo e preferem esconder de vocês mesmos como eu fiz até agora. mas eu desisto! a tristeza, visita constante, chegou novamente mas dessa vez vou abrir a porta para que ela possa entrar. quando estiver tocando o violão e as cordas insistirem em tocar aquela melosa melodia, não vou parar de tocá-las, vou simplesmente ouví-las ecoarem em peito tão desfalecido, em abismo tão incerto, em correnteza tão cruel. dilacerando veias e inundando vilas inteiras; e mesmo que você ainda persista e exista, maldita sejas, clarisse.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

engarrafamento

Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 1982.

navegue entre todas as gotas de água e seres vivos que se embrenharam no fundo do mar. navegue por todo o horizonte azul até alcançar terra firme, futuro incerto. pra onde as ondas te levarem, pra onde o vento resolver te direcionar, até parar nas mãos de quem o destino, caprichosamente, tenha escolhido para esta recepção.

eu escrevo linhas tortas pois em minha terra já não há mais amor. escrevo e enxugo as lágrimas que talvez sejam as últimas que cairão sobre esse solo. escrevo o que eu não posso dizer e acabo dizendo o que não quero mais escrever. quero ser compreendido, mas não quero que ninguém tente me entender. quero ser interpretado, mas não quero que ninguém me leia. então escrevo para que olhos desatentos sejam novamente olhos esperançosos, para que semente semelhante a que plantei em meu jardim não acabe como a minha flor-sem-vida entre flores mortas em quintal tão morto.

se você chegar a mãos delicadas, que as conserve. se você alcançar coração gelado, o derreta. se encontrares tristeza, semeie alegria. te escrevo com todo o carinho que em mim resta, como um último suspiro de esperança, e ao mesmo tempo de alívio. te escrevo exatamente onde morreu a minha última flor, e onde te encerrarei. então desejo do fundo de todo o meu sentimento já vivido até aqui: chegue a olhos cegos e desperte nelas a verdadeira visão, o poder de enxergar o amor em coisas tão simples como uma carta, como você, guardada dentro de uma garrafa de um vinho qualquer.


todos os amantes.

sábado, 10 de setembro de 2011

infinita tristeza

enorme sorte geográfica
logo ali, do outro lado do muro
eu criei meu refugio
no passado,
que bem guardado
não foi esquecido,
muito menos apagado
como um retrato
muito bem emoldurado
seus cabelos grisalhos
as lembranças guardei
e nas lembranças me abraço
me apego - e te digo sincero
infância saudosa
de uma quase visita inquilina
passei a ser
na casa pasqualina

chocolates na epoca
sorriso no rosto
um beijo dengoso
de quem sabia agradar
falava no tom certo
não precisava me esforçar
eu ficava encantado
parado, atento, ouvinte
e todo dia seguinte
eu de novo estava lá.
deixava a minha propria tv
abandonada na minha propria sala
pra atravessar o muro
e ligar a de lá

lembro das fotos antigas
dos móveis pesados
do aconchego do quarto
e hoje não consigo imaginar
o vazio que ronda o grande corredor
não consigo entender
como pôde acontecer
com alguém igual a você

onde estiver, o menino que fui e o homem que hoje sou
estarei com você que foi o meu primeiro amor!


à maior parte da minha infância.
descanse em paz.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

despedida

e hoje eu não vou trabalhar
não quero saber se o sol nasceu
se a flor que plantei cresceu
hoje eu não quero ver o mar
não quero saber das canções que ja cantei
dos lugares onde eu já passei
dos sentimentos que ja senti
e do que passei pra chegar aqui,
eu vou falar mais baixo
pra mode não te acordar
se é domingo ou se é sábado
você continua a sonhar
então vou falar mais perto
para que mesmo dormindo
você possa escutar
as canções que não cantei
e as que ainda não escrevi
dos lugares que passei
em todos eu te vi
e que mesmo que nos impeçam
e que não nos deixem rir
nunca irei te deixar partir
falarei mais baixo então
mas direi as coisas certas
pra que possam chegar ao coração
que lutei tanto para conquistar
falarei das guerras
que sozinho enfrentaria
das batalhas, trincheiras
eu não fugiria
e sentiria no peito
o coração que arde
defendo o mesmo
motivo pelo qual ele bate
que entre essas quatro paredes
que estamos nós dois
não fugiria de nada
mas deixaria pra depois.

domingo, 31 de julho de 2011

La fontana dei desideri

Cecília e o amor. poderia ser um livro cheio de crônicas, todas cheias de diferentes histórias encantadoras e finais iguais. ela esteve por todo o mundo, viveu amores em todas as estações do ano, mas adorava mesmo o inverno e a Itália. adorava pintar as unhas com cores discretas, milhares dela. adorava cantar e tocar piano, se encantava com programas sobre animais e amava demais.

ninguém no mundo está a altura de Cecília. já que contei, todos agora sabem, menos a própria. ela sempre se entregou a paixões, mas nenhuma delas a merecia. seus olhos são repletos de poesia, encantadoras estrofes e refrões inteiros de uma harmonia. ela sabia tudo sobre o amor, pesquisou em filmes, livros e histórias que ouvia. histórias essas que começaram a ser colecionadas por ela ainda na barriga da mãe. seu pai as contava e desde cedo ela foi cercada pela maior variedade de contos, e adorava principalmente os românticos. amava todas as histórias que ouviu da infância até os 15 anos, quando seu pai morreu de câncer. Cecília nunca esqueceu a última história que ouviu enquanto ele ainda estava no hospital.

(...)

jogou duas moedas enquanto esfregava os olhos secando as lágrimas. esboçou um sorriso em meio a um pequeno choro e suspirou. veio logo a tona uma imagem alegre de seu pai contando sobre a fonte dos desejos. então finalmente foi procurá-la. desejou que todas aquelas histórias de romance que ela mesmo viveu acabassem. se não fosse pra viver um final feliz, ela preferia ser feliz sozinha. foi sua ultima tentativa, Cecília e seu coração não se entendiam mais. mas essa história que vos conto não é mais uma triste, não poderia ser. durou 2 semanas. a fonte dos desejos ficava na Itália, ela se mudou para o lugar onde viver viver e sonhar se confundiam. só faltava algo na vida dela. pronto, não faltava mais.

Bernardo estava na cidade para visitar a avó italiana. adorava o café da esquina do hotel onde ficava. foi lá onde começou a última história de Cecília, que até hoje continua a ser contada. ela desejou um amor firme e real. ela não planejou, apenas jogou as moedas e acreditou no seu desejo, acreditou que merecia viver um final feliz. ele pediu a conta e quando o garçom trouxe o seu troco acabou tropeçando e deixando cair várias moedas no chão. ele prontamente ajudou a catá-las enquanto o garçom ria sem graça. enquanto tentava se desculpar em um italiano enrolado, Bernardo já estava atraído por tanta poesia naqueles olhos que o acertou lá no fundo. Cecília estava apenas devolvendo uma moeda e ele estava devolvendo as esperanças que ela vive no amor até hoje.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Aos bons

Venho primeiramente, e antes de tudo pedir licença, uma a Deus porque o assunto não é dos melhores, e outra ao Rafa que me concedeu o blog pra postar em um momento de loucura, mas vamo lá.
Amanheceu, e nada era igual, não que tivesse saído do lugar, mas simplesmente já não havia mais lugar. A vida. O que ela significa pra você, ou pra eles, ou pra nós? As mesmas respostas pras mesmas perguntar, e como sempre estagnados no mesmo mistério. No caminho que traçamos, escolhemos, pensamos, vivemos e talvez até aprendemos, mas ultimamente as maiores lições que vejo são as que eu não sou nada, e que os bons nem sempre estarão conosco.
Amigos, parentes, ou apenas distantes, mas que nos chocaram por não acharmos que era a hora do "adeus" e se foram. Já não se vive mais como era de costume, a alegria transbordante de um sorriso falso e amarelo, todos percebem que é falsa, e a força do homem na rua, é o choro de saudade do menino em casa.
Não sou poderoso, vim do pó e sei que a ele retornarei, e mesmo que fosse não julgaria. Olho pro céu, com coração apertado, saudade daqueles que se foram... O que ficou? A essência, as memórias, o sorriso, a ausencia, todos que já tiveram perdas na vida, nesse momento estão me entendendo... Aos bons, que foram cedo, meu humilde adeus e minha promessa de fazer valer meus dias em nome dos seus, e que sempre se faça presente aquilo que nunca se foi: Nossas histórias, as verdadeiras imortais!

Vinícius Felizola

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Qual é a sua?

qual é a sua?
que passa e me provoca
e depois finge que nunca me deu bola
que disfarça olhar, menospreza elogio
dá de ombros para os queixos que caídos
caem quando você passa.

inquietamente deslumbrante
não consigo ver nenhum defeito
não ouso procurar com anseio
mas o que haveria de procurar
quando o que se mais dificil de achar
já estaria acomodado em minha memória.

para os meus versos és razão
para as minhas noites mal dormidas: indecisão
sobre o que melhor pensar
sobre o que você quer de mim, adivinhar
qual é a sua?
eu já sei do que gostas
das músicas que te fazem dançar
dos filmes que te fazem chorar
eu te falo as coisas que sempre quis ouvir
e ouço quando ninguém quer te escutar.

onde as horas estariam?
voando ao nosso redor estão
e você de proposito anunciria
quando elas já tocassem o chão
e diz o quanto bobo eu seria
se te pedisse pra ficar
implorando que recitasse
o que quis tanto escutar
de alguém com paixão
mas ninguém lhe deu atenção


qual é a sua?
sei que não queres nada
mas sei que posso ser tudo
sonho com você toda a madrugada
e que tudo isso um dia seja verdade
e que a verdade seja mt mais
e que mt mais sejam mais sonhos
e que mais sonhos sejam a realidade
e que a realidade seja você!
vou te ver passar mais uma vez
te escreveria uma carta
para ser enviada daqui há alguns anos
e me desafiaria
se soubesse onde você moraria
apostaria que onde você estivesse
feliz estaria
e a carta leria
com contente sorriso ao seu lado
e todo o motivo parecesse óbvio
e esse cara seria eu.
apostaria.
se eu soubesse, o faria.
se eu soubesse qual é a sua.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mil por hora

eu tava onde deveria estar. ela veio andando e falando bem rápido, à companhia de sua mãe que escutava com paciência os caprichos da filha enquanto carregava uma radiografia do hospital próximo ao terminal onde estávamos. tive a sensação de já ter ouvido aquela voz. o sol refletia nos meus óculos escuros, fazendo eu inclinar um pouco a cabeça para baixo. então assim que ouvi a voz, prestei atenção nos pés, dedos delicados e uma pele branca, quase transparente. a medida que se aproximava, mais chamava a minha atenção. roupas discretas que nada combinavam com o tom de sua risada. inclinava a cabeça para trás, fechando os olhos minuciosamente enquanto mostrava aquele belo sorriso. cabelos cachados e dourados lembravam a minha primeira paixão, vivida aos oito anos, eu acho.

não consegui olhar em seus olhos. o ônibus chegou e entrei rápido, atentei-me para procurar um lugar perto da janela, queria distrair-me antes de chegar ao meu destino. sentei-me. senti uma presença suave ao meu lado, parecia apenas uma brisa de aroma que se tornaria inconfundível. ouvi sua mãe chamar por seu nome ao pedir para segurar suas bagagens. Carol. quinze anos depois. por onde ela andou? o universo estava ajudando com o nosso reencontro e nos dando uma segunda chance. ela continuava linda, e ainda tinha um rosto de criança, de um anjo.

decidi virar o rosto e olhar para ela fixamente, foi quando me dei conta de que ela já estava esperando enquanto olhava pra mim com um sorriso de derrubar humores tristes e de ensolarar dias chuvosos. não consegui falar nada, só esbocei um sorriso desengonçado. foi quando ela desfez o sorriso, articulou os lábios e disse o quanto eu estava incrivelmente diferente, mas que teve a certeza de que era eu mesmo quando abri aquele sorriso tronxo que a fazia ficar sem graça. tentamos colocar os assuntos em dia, mas não tivemos tanto tempo. ela teve que descer no ponto seguinte ao meu pedido. consegui o número do celular dela e prometi ligar por algum dia. enquanto sua mãe tentava atender o telefone, Carol atravessou a avenida olhando para a janela do ônibus que eu me escorava para vê-la melhor. quando ela conseguiu me ver, levantou os braços e acenou para mim, foi quando tudo foi interrompido por um carro que vinha na direção contrária e invadiu a contramão. ali vários sorrisos foram desmanchados. ouviu-se muito choro, gritos e sirenes. meu coração acelerou enquanto mais uma história estava sendo interrompida.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Belas-artes

as coisas não acontecem por acaso, não é? ninguém apontaria, se tivesse uma única chance, aquela dia como promissor. acordou realmente cedo, mas esperou a claridade tomar conta totalmente do seu quarto para levantar-se de vez. morar de frente para a praia não é um privilégio para qualquer um. olhar direitas e esquerdas quebrando em um revezamento sem fim. ver pessoas tentando escapar das preocupações que deixaram antes da areia na beira do mar. então ele olhou pela janela e viu que o dia estava maravilhoso, como qualquer outro dia no paraíso em que vivia. vinha de uma família muito rica de gerações de médicos bem-sucedidos, o que necessariamente não quer dizer que ele seguiria a profissão também. muito pelo contrário. tinha a juventude em seus olhos e disposição a sua volta, mas estava sempre largado pelos cantos da casa com seu violão. parecia não se interessar por nada.

o prédio de arquitetura moderna que ostentava grandes pedras de granito preto era o local onde seu pai decidiu apresentar aos seus amigos da alta sociedade o seu mais antigo hobbie. além da excelente fama de melhor cirurgião da Califórnia, dedicava parte do seu pequeno tempo de sobra para a sua paixão pela pintura. dividiu o espaço na galeria de artes com mais dois artistas amigos seus de longa data. era indispensável que toda a família estivesse presente. então mais uma noite foi adiada e ele teve que ir presenciar seu pai, obrigado por sua caprichosa mãe. embrulhou-se naqueles desconfortáveis e brilhantes sapatos que, irritavelmente, combinavam com toda aquele terno minuciosamente engomado.

muitos sorrisos e abraços. muitos daquelas risadas eram forçadas, e daqueles apertos de mão, poucos eram os que não tinham a simples intenção de bajular alguém. joias caras, carros vistosos e vestidos deslumbrantes. mas nada chamou tanto a atenção do protagonista como a tela pintada à óleo. longos cabelos. maior ainda aquela ternura. não chegou a tocar na tela, muito menos na musa que a inspirou, mas podia sentir aquela pele aveludada. quanta graciosidade. ela parecia mover-se delicadamente na tela, parecia encanto. uma bailarina flagrada em um movimento que transmitia a sensação de saudade, de vontade de ver o que acontecia depois dali. o que aconteceria depois do espetáculo? será que ela aceitaria o seu convite para sair em meio a tantos outros a cortejando. era só uma pintura. ele não tinha visto quase nada, mas enlouqueceu com o pouco que viu.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Conspiração

eu demorei para perceber. precisei lamentar-me bastante por não ser completamente feliz e raclamar por dias seguidos da minha tristeza e solidão. doía tanto estar sozinho que não conseguia me imaginar sendo feliz novamente. isso mesmo. novamente. fui mais um do clube dos mais felizes do mundo e lembrei do amor que jurei ser por toda a eternidade. forcei sorrisos de frente para o espelho e percebi que quando eu estava com você, até os sorrisos que eu tentava disfarçar quando você falava alguma coisa sem sentido, eram mais espontâneos e mais cheios de vida.

o meu barco já era muito pequeno normalmente, mas depois de um tempo nele já não cabia tanta tristeza. a lua apaixonada chorou tanto que do seu pranto nasceu o mar. o samba antigo da minha viola insistia em tocar versos que me deixavam ainda mais apreensivo. nunca tinha percebido que o telefone é perto demais do sofá onde costumo domingar sofrendo com os jogos do vasco. o telefone que aproximaria a distância e, talvez, alivaria esse aperto que dói tanto em meu peito, é o mesmo telefone que pode trazer mais dor em toques inacabáveis sem-respostas. melhor deixar assim mesmo.

vou para a praia no final de tarde. as ondas que insistem em me levar parecem querer me avisar para sair correndo dali para outro lugar. elas vinham inconstantemente sem parar, parecendo que estavam insistindo no que queriam me dizer. o pôr-do-sol e as rodas de altinha olhavam pra mim com olhos misturados de raiva e dó. o céu tomou-se pela escuridão. ai veio novamente a lua, que me fez prometer ir atrás de quem eu sentia tanta falta. em troca ela pararia de chorar e de inundar cidades inteiras. constelações me levavam ao seu encontro e até o seu jardim sorriu pra mim. toquei a campainha e, como se estivesse a minha espera, você veio correndo atender a porta.

fica mais um pouco, amor

deixa eu segurar o seu braço, com a força necessária somente para te fazer pensar em ficar, para te fazer pensar em aceitar o meu convite. deixa eu sentir a sua respiração de perto, prestar atenção na cor dos seus olhos. você sorriu a noite inteira e eu ao menos sei seu nome. de onde você veio eu também não sei, mas sei pra onde quero te levar, onde quero acabar a noite e começar o dia de amanhã. não me diga que sorriso tão lindo já tem abrigo, e sim, me diz que também passou pela sua cabeça que nós dois combinamos e que juntos faríamos um casal lindo. vai. me deixa ajeitar o seu cabelo e sentir o seu perfume. me deixa te dizer as coisas lindas que pensei a noite inteira, me deixa saber qual seria a sua reação se soubesse que posso ser o cara que morava em seus sonhos quando você ainda acreditava em príncipe encantado. fica mais um pouco, amor. eu ainda não dancei com você.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Perfume

feitos um para o outro. todos diziam com toda a certeza do mundo que eram o casal mais bonito que conheciam. eram totalmente diferentes, mas não poderiam ser de outro jeito. ela era totalmente agitada e ele irritavelmente calmo. tudo a irritava nos dias de tpm mas só ele a acalmava, do mesmo jeito que os caprichos dela as vezes venciam a sua paciência.

faltava menos de um semestre para formar-se. enquanto fazia planos para a vida pós universidade, sua namorada era caloura de uma turma de pedagogia. ele desde criança sonhava em construir prédios enormes, e ela desde sempre gostou de crianças.

dia dos namorados. mais um. depois de tantos passados, os presentes tornavam-se cada vez menos caprichado, por descuido então, comprou um perfume. experimentou o que mais lhe agradaria sentir o aroma dias e dias seguidos e entregou para ele. passaram-se 10 meses. tempo suficiente para todo o conteúdo daquele recipiente acabasse.

de borrifada em borrifada, e como em um estalar de dedos, andando em nuvens como a distração, acabou. vieram brigas, reconciliações, alegrias e tristezas. todo o tempo que passaram juntos foi eterno, mas enquanto durou. no mesmo dia em que lamentou-se por não ter sobrado nada além dos resquícios do perfume no frasco, chorou e debruçou-se em prantos. conformou-se. tinha a certeza que era só mais uma briga e que voltariam a se entender novamente.

e foi assim. junto com o perfume, acabou-se o amor. eles nunca mais voltaram a se ver. ele se formou e foi trabalhar com seu pai em uma firma e ela hoje em dia dá aula para crianças numa escola perto daqui, casou-se e já tem uma linda menina.

sábado, 4 de junho de 2011

Simpatia

ah! quanto amor guardo dentro de mim. quanto zelo, quanto apreço, quanto amor! se você ao menos soubesse o quanto penso em você, o quanto sonho com nós dois. ah! se você desconfiasse... se eu apenas corresse o risco de ter um sentimento assim correspondido, se eu corresse o risco de que você gostasse tanto assim de mim. se conseguissem ver a minha alma através de meus olhos, desconfiariam de que eu seria o grande amor de sua vida, e que poderíamos ser o casal mais feliz e apaixonado do mundo. se pudessem assistir aos meus sonhos, saberiam que em algum lugar desse universo, em alguma realidade paralela ou em algum lugar perdido no espaço, nós já somos completamente felizes, dedicados um ao outro.

o desespero tomou conta de mim. somos próximos e cuidamos tão bem um do outro, sei que não podemos abrir mão de uma amizade tão bonita, e nem precisamos fazer isso. podemos ser melhores que isso, podemos ter o melhor de nós dois. então fiz algo. o mundo não poderia perder um amor desse tamanho. você precisava me ver da forma correta, me ver além de conversas amigáveis, conselhos e ombros-amigo. encostei-me ao pé do seu ouvido e recitei palavras há muito tempo recitadas por outras línguas igualmente desesperadas.


"Tamanho amor que trago em mim constante, por esse coração que vos fala. Então agora seja meu e veja adiante, seremos um só e nada nesse mundo nos separa."

sólido, firme, elo, simpatia. após as palavras balbuciadas um clima estranho instalou-se entre os dois. ele desnorteado e ela ansiosa com o resultado de tudo aquilo. apressou os passos, desculpou-se e deu as costas. da parte dela não vieram lágrimas e sim uma promessa: desistiria de tudo, desistiria da conquista. foi deitar-se com sua consciência. decidiu que sonharia com aquele amor pela última vez. o telefone tocou.

as palavras que vinham do outro lado da linha vieram de forma confusa e afoita. desculpou-se e tentou repetir o que tentava falar, mas sem gaguejar dessa vez. outra tentativa frustrada. então resumiu. "eu sempre te amei, todos já perceberam, menos você." seu coração palpitou e sua consciência mais confusa ainda ficou. não sabia se estava lúcida ou não. era um sonho ou era verdade? será que ela tinha enfartado enquanto dormia e agora estava em uma espécie de outra vida ou outro plano paralelo? o que estava acontecendo ali? a simpatia que sua tia te ensinara, havia fucionado ou apenas aquelas palavras despertaram o que já havia de ser dito?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Resumo em três partes

A QUEDA
rasgou o céu proporcionando um espetáculo aos casais que namoravam debaixo de tamanha exuberância, e caiu em terra firme. milhões de anos viajando por espaço sideral, universo a fora estava a deriva sem destino até encontrar um lugar para acomodar-se. encantou uma longa lista de gerações de pessoas enquanto brilhava majestosa e cintilante, esperando por seu derradeiro fim marcado por uma grande explosão. mas não. diferente ela sempre foi, nasceu assim. diferente ela sempre será, nunca morrerá.

tomou forma. tornou-se magnifica. bastou acomodar-se em desconhecidos ares e acostumar-se com a -nova- vida. ela precisou morrer para viver. Ester, que significa o que fora em vida passada, estrela.


O OUTRO LADO
normal vermos casais e final felizes em histórias e contos de amor, mas sabemos que a realidade distancia-se um pouco desse caminho. Adriano e sua namorada já não se entendiam e brigavam sem parar. já não se conheciam. mesmo assim, ele sempre soube que ela era o grande amor de sua vida e lamentava-se muito, mesmo que a culpa não fosse sua, se atirava em arrependimento profundo ancorado pelo sentimento de culpa.

morava em uma casa um pouco afastada da cidade que mais parecia com um sítio. gostava de esticar-se na rede e tocar violão enquanto observava as constelações, nomeando-as uma a uma, da forma que sua mãe o ensinara. gostava especialmente de estrelas cadentes, e em toda sua vida já tinha visto dezenas delas, mas nenhuma igual a que viu naquele dia.


INTERSEÇÃO
para a palavra destino, encontramos infinitos significados e infinitas definições, interpretações e crenças diferentes, mas nenhuma delas engloba ou estaria preparada para tal situação decorrente. na mesma velocidade em que a estrela caiu, o coração de Adriano parou assim que se deu conta do que seus olhos estavam vendo. amor à primeira vista ou amor de outras vidas, não se sabe, não se arrisca dizer, só não se atreva a dizer que isso não aconteceu. ele conheceu, se apaixonou e conquistou Ester, que já não era mais uma estrela, mas ainda brilhava da mesma forma.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Semi-conto de amor desordenado

a tenho em minha mente, e como não a teria? simplesmente tenho e só assim posso tê-la. tentamos criar oportunidades, mas sabíamos que quando não é pra acontecer, não acontece. talvez tenha sido por isso que ainda és tão especial pra mim. histórias de amor com 'felizes para sempre' dificilmente existem, todos sabem. podíamos nos decepcionar, acabar não nos adaptando, conhecendo outras pessoas, mas não. simplesmente mantivemos a platonicidade e hoje a conservo em mim em um dos lugares mais alto em meus sentimentos. enormes casas cheias de cores e perfumes seriam oferendas de sentimentos que mandaria para sua casa. mas não me leve a mal, não interprete-me mal. tenho um coração e ele congelou na hora em que sabia que podiamos estar juntos, e há tempo de minha consciência perceber o meu lugar. a realidade - ou falta dela - dá asas a imaginação, e a nossa historia eu invento o final, porque sentimento existe de sobra.

domingo, 8 de maio de 2011

Extinção

nasceu a ultima esperança da humanidade. sob a terra viviam pessoas frias e calculistas, pessoas egoístas e extremamente capitalistas. o mundo havia se tornado um lugar onde o dinheiro comprava qualquer coisa, e a unica coisa que não se poderia comprar, eles simplesmente esqueceram. deixaram de lado o amor. filmes românticos nem eram produzidos mais. nas comédias românticas, ninguém mais via graça, ninguém mais na face da terra sonhava e suspirava com a sua cara metade. relações frias movidas a interesses foi tudo o que restou para a humanidade.

quando pequeno, descobriu uma coleção de filmes clássicos que sua mãe escondia numa caixa no fundo do guarda-roupa. filmes com diálogos de tirar o fôlego, com historias de duas pessoas que se conheciam de formas improváveis e se apaixonavam, de historias onde o universo parecia conspirar por um fim feliz, onde depois do 'the end' nada mais importasse. se foi ironia do destino, não se sabe, mas ele nasceu e cresceu encantado com o que poderia sentir por alguém, por vários alguéns, por procurar a pessoa certa.

teve várias namoradas. várias decepções. vários momentos inesquecíveis. vários acontecimentos lamentáveis. sorriu e chorou muito, tudo em seu devido tempo. apaixonou-se, namorou, sofreu, esqueceu. como um ciclo que o fazia pensar se tudo aquilo estava indo certo, como ele planejara na infância ao idealizar o 'estar apaixonado'. mas ainda não tinha tomado aquela rasteira que se toma de jeito, não havia sentido seu coração palpitar loucuras onde as pessoas viam frieza. não havia sentido, de fato, o amor - ainda.

chuva. frio. chopp. amigos risadas. cantadas. tudo nos eixos, até adentrar em seu campo de visão o que o faria mudar completamente. indescritivelmente linda e articulada, ela se equilibrava em uma das pernas enquanto conversava qualquer coisa com qualquer outra pessoa. nada mais importava além do seu novo - e inédito - foco. ele sabia o que dizer. havia ensaiado por anos, esperou tanto por aquele momento e sentiu que havia chegado sua hora. a hora de mudar o mundo. sabia que se não tomasse a iniciativa, nunca se perdoaria. e foi.

triste da humanidade. ela teve todo o destino em suas mãos. não sentiu a profundidade em seu olhar e o desejo que lhe fazia suar as mãos e balançar as pernas em ansiedade. não entrou em sintonia. o destino parecia conspirar para uma reviravolta em toda a situação, a favor da propagação daquele calor apaixonante. hoje em dia ele continua sabendo como agir e o que falar, mas não se sabe o que aconteceu com todo aquele brilho no olhar. ele veio para transformar o mundo, e acabou apagando-se nele. o amor estava extinto.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

À toa

a cadeira balança. e no balanço da cadeira eu fico balançado, tentado a te ligar, pensando em onde você está. lembrando do dia em que te fiz tremer as pernas e baguncei as suas ideias. sinestesiadamente desesperada sem saber o que sentir e o que pensar, preferiu não arriscar-se, muito menos atirar-se em algo tão desconhecido e escuro. acomodou-se. era melhor assim, pra que apaixonar-se, ou admitir tal sentimento e correr o perigo de reabrir feridas já cicatrizadas.

sinto falta do seu cheiro, do seu beijo, do seus anseios, do meu choro amparado em seu ombro e das noites de sono em seu colo. sinto falta da proteção em seus braços, sinto falta das palavras doces no meu ouvido, sinto falta do calor em meu peito, sinto falta de seu sorriso, sua tpm. sinto falta de seu jeito de ajeitar o cabelo, do seu malabarismo ao dizer que tudo vai ficar bem. sinto falta da covardia que era o seu olhar que me hipnotizava ao imaginar que os sonhos que tive, realizaram-se quando consegui te beijar pela primeira vez, te fazendo perder o fôlego. não é a toa que te quis tanto.

hoje sinto-me culpado. te fiz se apaixonar, te fiz me desejar, te fiz querer estar perto de mim e acabei despertando o medo em você de ser feliz. fiz acordar em você o seu melhor e você fez correr de nós um futuro. a culpa é minha por criar a possibilidade de fazer cada respirar valer a pena. culpada é você por não ter acontecido, por ter fugido.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pseudo incoerência

se palavras nunca fossem omitidas, as subentendidas não levariam a fama de não-confiáveis. as vezes, tentar esquecer e tentar não lembrar surtem efeitos contrários aos desejados inicialmente. duas pessoas e uma conversa. como se entenderem? cada um tem o seu jeito, cada um tem a sua convicção; fora o comodismo, o orgulho, a raiva, a impaciência contribuindo para o desentedimento. as coisas acontecem por terem que acontecer, por ser melhor elas terem acontecido, e o contrário também é válido, não se esqueça: coisas não acontecem por simplesmente ter sido melhor elas não terem acontecidos. saiba a hora de conformar-se, mas saiba diferenciar conformismo e comodismo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Metade de nada

Descrente coração que bate
em desconfiante arritmia
por bater, somente bate
em silenciosa agonia
desmoronando inteira cidade
interiorana e vazia
sabe que em si cabe
a outra metade que se encaixaria.

Em outro conto, outra estante
encontrará o que lhe falta
só não se sabe o instante
em que essa história acaba.
E que acaba toda a espera,
e que acaba a impressão
de uma caminhada solitária
lado a lado a solidão.

Se pelo menos se entregasse
se pelo menos permitisse,
que apenas um raio de sol entrasse
janela a dentro e invadisse,
irradiando a manhã
aquecendo a sala de estar
te convencesse que amanhã
é tarde demais para amar.

O outro lado

uma risada eclodiu lá no fundo da madrugada, o vento passava por frestas deixando ecoar agudos sons que pareciam gritos engarrafados. o céu estava limpo, a não ser pelas várias nuvens carregadas que vinham do litoral para o centro da cidade. a visão que eu tinha era da janela da frente e a avenida, que por trás se divertia com seus opostos horizontes sem fim, hora iluminada, hora não, graças a um poste que há 2 meses começou a apresentar esse (de)efeito se fazendo parecer com um arranjo de natal, se visto lá do espaço sideral.

estaria dormindo se estivesse com sono, estaria entertido lendo um livro se soubesse ler algo que não me interessasse. estaria bêbado se tivesse motivos para beber, tristes ou alegres. poderia estar em qualquer lugar, mas estava ali, sentado, fitando o nada, organizando meus pensamentos, viajando. até a hora em que me dei conta da tensão que envolvia o ar e a situação. veio o medo e derrubou a ficha que faltava para me tocar que não havia ninguém por perto. a situação pintava com a escuridão toda aquela melancólica sensação sufocante e devastadora que a solidão nos causa e, que ao escrever, apaga toda a mágica diária do viver. viver? pessoas passam na minha frente e ninguém me vê. atravessei para o outro lado e nem me dei conta que já havia passado de minha hora. todo o choro que havia de ser derramado, foi derramado. toda a dor que há de sentir-se em uma partida, foi sentida. estou do outro lado e agora é tarde para tentar reparar uma vida de omissão.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Jogo rápido

não consigo te deixar. não conseguiria. não te deixaria. não suportaria a dor e o arrependimento que me inundariam, declarando naufrágio e falência completa de todos os sentidos. por mais que sua presença ainda me doa, não imagino estar ao lado de sua ausência.

domingo, 17 de abril de 2011

Situations

ela acabara de o conhecer. nunca tinham nem se visto antes, ele tinha dito o nome quando se apresentou, mas até ali não tinha chamado a sua atenção, então estava pensando, depois de tanta conversa, como chamá-lo, já que havia esquecido sua graça. ele articulava as palavras e organizava as ideias soltando-as sem parar, atordoando arrumadamente a cabeça dela e a convencendo de que o que ele falava era pura verdade, e o que mais a assustava era que antes de responder alguma coisa, as ideias dela já estavam sendo explanadas por ele, como se lesse os seus pensamentos. estava pasma com todo o encantamento repentino que estava sentindo. conversavam sobre muitas coisas diferentes no meio de um monte de gente.

no inicio não estava interessada, mas agora era diferente, estava fingindo não estar. ele percebeu e a deixou sozinha, saiu subitamente. fez com que acreditasse que tentaria alguma coisa e insistiria, mas a deixou plantada em pé sem saber o que pensar. ela se esforçava e se espremia mas não conseguia lembrar do seu nome. começou a criar cenas diferentes de um futuro próximo que não sabia mais sobre o que pensar, enquanto ele a observava, de um canto, quase escondido, esperando a hora certa, esperando o arrependimento dela chegar e tentar explicar o tamanho da oportunidade que havia perdido.

não podia chamá-lo. como chamaria? tudo na situação a deixava mais encantada. um estranho que parecia mais íntimo do que muitos que conviviam com ela todos os dias, a forma como ele expunha suas ideias e como ele sabia justamente o que ela ia falar e o que ela queria ouvir. o bloqueio, que era companheiro, não existia ao seu lado. ela, que crera que ele iria aparecer e tomar-lhe em seus braços. a sensação de esperança a mantia esperando. até começar a desacreditar. sentou-se e em meio a tantas pessoas, sentiu-se sozinha. fechou os olhos.

do mesmo canto em que estava, sentiu que deveria se aproximar. e o fez. ela sentiu-se leve de repente. ele ja havia provado que sabia o que dizer, mas agora ela tinha a certeza que ele sabia desde o inicio que ia acontecer. se conseguia ler mentes ou prever o futuro, ninguém sabe. mas naquele momento, entre todos os conhecidos, os estranhos tornaram-se mais íntimos do que todos os outros.


agradecimentos imensuráveis à Camilla Canuto;

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sobre o medo

quando criança lembro do brilho que tinha nos olhos. brincava de atormentar as formigas grandes e assustava lagartixas. o escuro era janela para minha imaginação; começava com alguns planos de fundo e depois com paisagens complexamente detalhadas.

quando completei dez anos, lembro do dia que meu pai me disse, choroso, sobre o falecimento de minha vó paterna. inocentemente, fiquei feliz por imaginá-la vestida com roupas brancas em um lugar onde as ruas eram de ouro reluzente e as casas feitas com pedras preciosas. era esse o meu jeito de encarar a morte.

estou ao telefone com minha mãe e noto que a sua voz autoritária estava dando lugar para uma voz triste e tímida. o motivo, no fundo, eu já sabia. minha avó materna está muito doente há algum tempo. tive um pesadelo noites anteriores e desde lá, carrego um pressentimento ruim que instalou-se em meu peito entre as minhas pulsações. hoje tenho medo do escuro que estabelece-se em minha casa antes de eu conseguir dormir. tenho medo dos pesadelos que terei, dos sentimentos que guardo em mim.

a segurança que nos falta, abre prescedentes para o medo. não existem motivos para temer monstros imaginários ou pequenos animais realmente inofensivos, mesmo assim o medo age como uma barreira que nos impede de raciocinar. não consigo mais imaginar a morte como uma simples passagem para um lugar inimaginavelmente tranquilo e poético. tenho medo, sou inseguro e carente.

passo correndo pelas ruas e corredores escuros, mesmo sabendo que estou sozinho. as lágrimas que tanto derramei apagaram aquele meu brilho nos olhos. meu maior medo é me imaginar escrevendo uma carta como essa na próxima década, dizendo que estou realmente sozinho e que ainda tenho medo.

Perde e ganha

as chances de nos conhecermos entre milhões de pessoas ao nosso redor é muito pequena, ainda menor é a chance de, apenas pela vista, você se interessar por mim. e entre tantas possibilidades e chances, mínimas são aquelas que seriam resultados da minha ação de ir e ficar de frente para você, as chances diminuem mais ainda quando se leva em conta a minha fala, e mais drástica é a situação quando levamos em conta se você vai gostar. provavelmente, quase com certeza, você não iria gostar da minha aparência, e se gostasse, quais as reais chances de você gostar do meu jeito, ou gostar e mesmo assim achar que nós não combinaríamos nem daríamos certo. as chances que fossem resultados de uma chance que vc me desse ao acaso seriam grandes comparadas ao pós-acontecimento. quais as chances de dar certo de verdade? se é que existe chance de que você queira que dê certo. você tem medo. não de mim, nem de você mesma. você tem medo de estatísticas e probabilidades. tem medo do que é incerto e não consegue atirar-se no escuro, quer garantias. e até mesmo antes disso, adota como 'não' a primeira resposta. as chances já são infinitamente pequenas e você ainda não quer dar oportunidade para o improvável. está magoada com o passado e teme que a probabilidade mínima anterior que se realizou, possa se realizar de novo e acabar abrindo as feridas que já estavam quase curadas. você tem medo. então não me culpe. tudo era favorável ao meu fracasso, e nunca me importei com probabilidade nem com estatísticas. as venci, tornei o irreal e impossível em algo viável e bom, mas foi você quem fracassou. quem perde é você!


não deixe um grande amor passar batido por você, se jogue, agarre-o. mesmo que não o faça e não se arrependa depois, te digo: você estaria muito melhor com alguém que é doido por você, do que aí feliz sozinha.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Você e sua realeza

Quanto tempo mais precisa
pra o olhar que me acertou
entregar-te ainda nessa vida
por inteira nesse amor?
Vou dizer que ele habita
onde você mesma o deixou
e que secular ferida
o mesmo já curou.
Se eu mentir que seja assim,
só pra não te ver chorar
se eu digo que está em mim
não é só pra te agradar.

Quanto tempo mais precisa
pra o olhar que você entregou
dizer que já é minha
a dona de tal esplendor?
E que sorte seria essa
se um dia fosse igual
o desejo que em mim reza
e o seu encanto natural.

E se fosse ideia certa
de estar sempre ao seu lado
faria com aquarela
o nosso fiel retrato;
Das esperanças e da amargura,
flertando a ansiedade,
beirando a loucura,
falecendo a sanidade.
Todas elas juram
existir uma só verdade
que um dia serei rei
se essa for sua vontade.
Realizando os seus anseios
e de toda a realeza
tragando dentro do peito
um sentimento de nobreza.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Câncer

como poderias existir? és tão bela. mais bela quanto eu imaginaria que alguém pudesse ser. mas como podes ser tão esbelta se és fruto da minha imaginação? és o que queria que alguém fosse, mesmo sendo ninguém. se és fruto dos meus sonhos, quem tu és? será que existes? tentivas de adjetivos, homenagens a ti, parecem que são fracos nos pés e não conseguem te alcançar. o que poderia fazer para te ter? o que poderia fazer para que existisses? te desejo, mas não existe desejo que te mereça. a realidade é dura demais para que te fizesse real. o sonhos sim, são puros, lá posso te guardar. ou melhor, conservar. sei que não podes ser possuída, mas apenas desejada. te amo com todas as forças e lamento-me por te amar. mesmo sabendo que essa platonicidade mantém-me vivo, sinto-me um parasita, escravo dos meus próprios sonhos. te criei em mim por prazer, te conservo por necessidade. como podes existir se te criei?

plantei em meu coração uma semente que acabou enraizando em minha mente e hoje toma conta de todos os meus pensamentos. não consigo não pensar em você. não consigo dormir, não consigo ficar acordado. passo o dia inteiro, todos os dias, sonhando. sem dormir, sem acordar. passo o dia inteiro suspirando pensando em te materializar. como pudes criar algo indefectivel? como consegui imaginar todos os detalhes inimaginaveis? estou doente e morrendo, mas estou alegre e satisfeito. estou doente. minha mente sente, meu coração pensa. já não sei mais que função cada parte do meu corpo exerce, já não o controlo, já não o conheço mais. olho no espelho e não me reconheço. olho no espelho não me vejo. te vejo. te desejo. anseio por duvidas. procuro questões e perguntas, porque as respostas já tenho, a certeza já possuo. você não existe, mesmo assim sou doido por você. te criei. és fruto da minha própria cabeça. mesmo assim sinto você aqui do lado de fora, sinto você aqui perto de mim. te amo mesmo que existisses.

Inspirações e aspirações

uma vista para o céu. as nuvens estão volumosas e, ao mesmo tempo, leves, passando e passando sem parar, dando formas e figuras diferentes para aquele imenso fundo azul anil que transmite tranquilidade aos olhos de quem aprecia mais uma tarde agradável. ao redor está uma praia cheia de pessoas. cheia de conhecidos que conversam e riem sobre diferentes coisas. sua vista vai de ombro a ombro e só alegria nesse cenário. quando olha para frente, vê a extensão do seu corpo estirado numa cadeira de praia confortável, e a areia branca e limpa. mais a frente, o horizonte inimaginavelmente sem fim que seus olhos não cansam de contemplar, o mar te encanta e te distrai por alguns minutos. o vento que te refresca, a sombra que alivia os raios solares e esse sentimento de bem-estar a cada respirar. o cheiro salgado e a sensação esfoliante da areia nos pés não te incomodam. nada poderia te incomodar.

olhos fechados para enxergar melhor. a cabeça para, só para pensar melhor. a imaginação que não te falta, te faz suspirar a cada aspiração. amores te cercam a cabeça e o coração. nada te estressa agora, tudo te sossega. problemas não te aparecem, problemas fogem, problemas são esquecidos. abstrai-se para tornar-se presente, para conhecer a si mesmo. por dentro, por fora. a paisagem é estonteante e sua cabeça está maravilhosamente bem resolvida, seus sentimentos estão se reorganizando e você está incrivelmente mais firme.

imagine-se fazendo tudo isso. mesmo cercado por paredes ou carros. mesmo deitando-se diariamente com frustrações e lamentações. pare para cuidar de você mesmo, pare para resolver-se. pare para seguir em frente. imaginação não quer dizer perda de tempo, mas sim o ponto de partida dos desejos, agora cabe a você tornar-los real. sonhe e realize. imagine e seja. faça acontecer! quando abrir os olhos talvez estará mesmo em uma bela praia.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

No balanço da rede

o que diria para você se nos reencontrássemos? fico imaginando tudo que poderia acontecer se nunca levantássemos da nossa rede. estamos ali agora enquanto sonho. estamos olhando para a imensidão do céu, aí me coloco no lugar de onde não deveria ter saído. no ritmo do balanço da rede meus braços te envolvem e te progetem novamente, como se nunca tivéssemos saído dali. como se todas as lembranças fizessem de nós uma brilhante estátua que estivesse ali para lembrar a todos que o amor ainda existe e que o nosso amor é firme e é eterno, como a própria estátua.

vários ventos sompram enquanto o tempo passa. a rede balança e não para. nem meu coração. estamos juntos e não consigo lembrar onde eu estava antes de te encontrar, e não me imagino longe de você, sem você. me acordou e não era um sonho. nossa rotina é amar mais a cada dia, renovando votos todas as noites. estamos na rede. meus braços ainda estão te envolvendo e você me pedindo pra nunca te soltar.

Homenagem

me dividi para mim para multiplicar-me para você. diminui meu tempo, subtrai meu orgulho e meus defeitos. apaguei o egoismo e a solidão. me reinventei por inteiro e me adaptei ao seu jeito de ser.

somei compreensão, adicionei carinho e atenção. acrescentei-me a você e agora só vejo um níos. somos, no intervalo entre cada aurora de fim de tarde, perfeitos. seu abraço completa minha carência e seu sorriso apaga a minha tristeza. mas afinal, que tristeza? suas lembranças em minha cabeça só me fazem contar as horas para te ver novamente.

(Homenagem à um casal amigo meu).

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Dispensavelmente nostálgico

preferi pegar aquele ônibus. claro que tinha um motivo, se eu pegasse a outra linha chegaria muito mais rápido a minha casa, mas quis passar pelo bairro em que vivi um dos melhores momentos da minha adolescência. quando o ônibus parou no ponto exato, desejei ver da janela, nós dois subindo, conversando e rindo das coisas que fizemos nas férias, ou das besteiras que falávamos sem parar.

quem visse de longe, sintonizava aquilo que parecia uma conversa entre dois irmãos, e não podíamos ser menos que isso. você foi pra mim mais que um irmão, um pai. éramos inseparáveis, indestrutíveis, até então. fizemos planos para nossas carreiras, você até me prometeu: "a gente vai fazer sucesso juntos! vamos levar a nossa música por aí até muita gente pagar pau!"

a vida seguia e nós corríamos contra o tempo, parecendo adivinhar tudo o que vinha pela frente. curtíamos como se não houvesse um amanhã, e melhor seria se ele não viesse mesmo. não sei onde você está agora, nem quais são as suas convicções de hoje. talvez nem te reconheça mais, talvez nem te chame mais de um irmão. o que se passa na minha cabeça, são lembranças de promessas e de esperanças, que hoje, estão manchadas de suor e lágrimas. onde você está?

domingo, 3 de abril de 2011

Quantos tantos olhos

quantos olhos. quantos olhos aos redores. quantas fitadas, quantos olhos. quantos olhares. quantos olhares te cercam. quantos olhares te flertam. quantos olhares em teu olhar cabe? quantos mistérios ainda faltam? quando a mentira se torna verdade, o impossível, possível, e o incerto torna-se absoluta certeza.

quantos olhos. quantos olhares a mim ainda cabe te lançar? muitos são os meus olhos que te vêm. muitos são os olhares, e só existe uma direção, é aquela contrária aos seus olhos. meus olhos te flecham, os seus olhos refletem os meus. nossos olhos se cruzam, nossos olhares se topam.

tantos são os olhares com que te vejo. tantos e tantos, de diferentes tamanhos e condições. tantos são os olhares que te anseiam à procura de palavras que podem ser ditas com uma simples flertada, um simples jogo de atração. meus olhos te dizem o que quero dizer, exatamente o que quero fazer, o que espero de você.

olhares céticos não me convenceriam. olhares duvidosos de mim correriam. olhares apaixonados me cegariam, e antes eu perdesse a visão, do que ter que te olhar somente de longe, do que saber que meus olhos não merecem o seu. então feche os olhos, guarde os olhares, o que eu quero é sensação, o que eu quero é sentimento. então durma que eu vou ficar de olhos atentos para nunca te perder.

sábado, 26 de março de 2011

Não são apenas palavras

e como um desespero na tentativa de sobressair-se sobre a condição de esquecimento, a alma faz emergir sentimentos e sensações que transpoem-se em palavras. os olhos são janelas da alma de dentro para fora, transmitindo e deixando florescer impressões que dificilmente se apagam. já de fora para dentro, os olhos são apenas porta de entrada para um universo complexo que se abriga em mim. impossivel termos pré-julgamentos em relação a alma das pessoas. temos preconceitos (conceitos imediatos) em relação a aparência ou sobre conversas de terceiros. se conseguissemos ler o que cada um realmente é por dentro, dificilmente existiriam tantas diferenças assim, tanta hipocrisia.

não aprisiono minha alma, pelo contrário, a deixo livre, interferindo em minha mente, em meu plano físico. então as palavras que jorram de mim são, de um todo, impulsivas. ninguém segura o que sou por dentro, não pretendo esconder a minha essência. esse sou eu. então eu sinto, eu sofro, eu sorrio, eu amo. e as palavras saem vomitadas dos olhos para o meio externo, e vocês sentem. esse blog é sobre isso, todos esses textos são isso. sinceridade, honestidade e inspiração.

palavras inspiram outras palavras, que inspiram outras frases, que inspiram outros parágrafos. textos saem um atrás do outro, mas por trás de cada letra está a minha alma. eu sou transparência e não tenho vergonha do que sou. sou coragem por dar a cara a tapa para quem quiser presenciar e sem ter que provar nada a ninguém. as palavras que saem do meu interior, não saem por pressão, saem por espontaneidade, por que elas tem que sair. as palavras estão no cosmos, e minha essência apenas assimila o que me torna o que quero ser. então se minhas palavras se dirigem a você, não as tome como inconsequentes, as leve a sério. e se um dia você quis que a sua íris transbordasse e sintonasse radiante com a minha, não existe tempo para voltar atrás. o tempo é curto. a vida é efêmera. somos o aqui e o agora, o amanhã somos nós, mas nós amanhã somos outros. a situação que acontece por ter que acontecer, não quer dizer que estava traçado como um conceito ultrapassado de destino, mas sim como por ter sido melhor acontecer, porque em outro emaranhado de situações aquilo se tornou base para outras ocasiões. somos o aqui e o agora.

segunda-feira, 21 de março de 2011

grande árvore dois

não sei em que época do ano estamos. não sei se estou acordado, ou se estou em mais um desses sonhos estranhos, onde lugares que não parecem ser, são. não sei lá fora, mas aqui dentro é primavera. da pra sentir o cheiro de rosas no ar quando o vento passa, da prá ver o céu alaranjado no fim de tarde e da pra ver também a minha árvore mais bonita que em qualquer estação do ano.

agora somos nós dois. eu e você. ou melhor, nós três, eu, você e a minha árvore favorita, madrinha de todas as nossas situações. ela nunca tinha visto alguém assim tão diferente como você, um ar de maturidade nunca visto antes, metade misterio, metade encantamento. o que seria de toda a flora se você não estivesse ali para coroar a visão de todo esse paraíso? o que seria de meus anseios, sem os seus sorrisos encabulados ou sua pele corada?

somos fruto de milhares de possibilidades e estamos criando raízes em várias situações. já me acostumei a lembrar de você, já me habituei com nossos diálogos e com todo nosso contentamento. sinto que estou bem perto de você e adoro quando sinto que cabe em meu abraço. o que minha árvore iria dizer?

domingo, 20 de março de 2011

grande árvore


tentava olhar para cima para ver toda a sua beleza, que passava despercebida por causa da sua localização. ela deve estar naquele canto há muitos anos, a julgar pelo seu tamanho, pela sua imponência. os seus galhos e sua copa se confundiam com a beleza da lua lá no céu, que se escondia por de trás daquela imensa árvore. não a imaginaria em outro lugar, a não ser naquele mesmo lugar que ela está há muitos e muitos anos. parece que ela foi feita para aquele cantinho, ou parece que tudo ao redor cresceu em função de sua magnitude. agora, mais que isso, aquela árvore foi feita para aquela situação.

eu precisava tomar um ar, estava ofegante e o meu coração estava disparadíssimo. várias formas de ver a mesma cena, mas eu só conseguia me enxergar fazendo um tipo de trapalhada. quanto mais eu falava e todas aquelas palavras saíam vomitadas, mais o ar parecia rarefeito, mais as paredes se apertavam. estava fazendo uma besteira, um grande atropelamento dos fatos. verbos transitivos que expressavam necessidade foram sendo citados um atrás do outro, os pensamentos vinham de forma desordenada e a ordem era se proteger de todas as consequências que aquilo teria.

acho que em tanto tempo, observando tanta gente, aquela árvore nunca tinha visto alguém tão atrapalhado assim. lua cheia, poucas estrelas e eu sentado no banco. agora eu estava desejando um cigarro, não que ele fosse apagar todos os erros cometidos, mas eu talvez ficasse mais tranquilo. não sei. o ar que me faltava, agora me sufocava, parecia estar respirando gases venenosos. facas cortavam minha consciência e minha cabeça estava pesando.

acho que em tanto tempo, observando tanta gente, aquela árvore nunca tinha visto alguém tão abandonado assim. queria que você fosse minha raíz, queria criar vínculo e estar ali com você, sem me importar qual fosse a estação. se seria primavera, se seria inverno, se minhas folhas estariam verdes e lindas ou se eu estaria debaixo de dias e dias de chuva. não me importaria. eu fui embora e árvore continua lá paradinha.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O risco

queria te conhecer melhor. aumentar as chances que apontem pra te conquistar, aumentar a sua confiança em mim e diminuir essa distância toda que nos separa. queria ver você passear com nosso cachorro pela praia enquanto eu, do mar, agradeceria por ter tido a oportunidade de tombar com você e de ter mudado a minha vida significativamente.

queria te ver por aí, conseguir puxar uma conversa e correr o risco de me apaixonar, de ser flechado por teus olhos que me cercam de tantas expressões. queria conseguir te ligar, te chamar pra sair, te falar que tudo sempre fez sentido e que eu conseguiria viver sem você do meu lado, mas eu nunca aceitaria outro tipo de vida, nem entenderia sentidos, explicações e teses que citassem o seu coração pertencer a outro alguém.

eu me inventaria e nasceria mil vezes só para ficar ao teu lado. eu viveria mil vidas só para poder te conhecer. enfrentaria mil destinos até merecer o seu amor por todo o resto da eternidade. eu amaria você.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sutil pretensão

não quero mais sentir essa aflição sem motivo. não sei se é algo bom ter sentimentos tão aguçados, não sei se é tão bom sentir-se profundo. sinto que ninguém consegue ir fundo o suficiente. também não sei se quero que mergulhem tanto assim.
tenho medo desse poço escuro, medo de submergir e não conseguir voltar a tona. muitos me trazem luz e me fazem bem, mas não estou satisfeito. não que eu queira que as pessoas sejam iguais a mim, mas quero ver sensibilidade suficiente para interpretar o que digo quando quero dizer o contrário, ou para simplesmente me abraçar.
não quero mais ter medos tão fortes, apesar de que receios são necessários para seguir em frente, serem superados. não quero mais planejar, sonhar e me frustrar. quero sinceridade e paz, poder dizer o que quero dizer e ficar calado quando me convém ficar.
quero manter-me equilibrado, me sentir único e querido. ser parte de um conjunto que não seja o vazio. quero ser mais. mais atenção, mais tolerância, mais compreensão e mais paciência. mas também quero ser menos. menos arrogância, menos ceticismo, menos egoismo e menos preconceito.
destino que me rege, farol que me orienta, constelações que me guiam, ajudem-me, me sinto perdido. na rádio diz 'don't worry', e eu não quero mais ser desequilíbrio, contraste. quero ser de todo bem, quero preencher meus espaços vazios e ser o que faltava na vida das pessoas. quero emocionar e ser emocionado, quero dias alegres e estações abundantes. quero cantar e ser ouvido, me tornar palavra e ser lido. quero vida, quero viver.

Despertar e o levantar

abençoa, meu Deus, mais um dia que está por vir. me faz forte, me faz seguro, não me deixe fraquejar, não posso fraquejar. hoje acordei tão impaciente. o dia está tão lindo lá fora, dá para ver pela minha janela, e mesmo assim não consigo controlar o meu gênio. dai-me paciência, Senhor. tenho pressentimentos ruins e aflições. protege-me de qualquer mal, protege a mim e a todos a minha volta. conserva as minhas amizades e perdoa as inimizades. obrigado por mais um dia de vida, por mais um despertar. obrigado pelo ambiente familiar em que vivo, e pela mesa repleta de sorrisos matinais e café fresquinho. obrigado por tudo que tenho.

amém.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não tem como saber

vamos formar nossa história, vamos nos arrepender amanhã, vamos nos convencer de que hoje a noite será eterna. eu gostaria de saber o que passa pela sua cabeça enquanto você olha para mim sem parar, eu gostaria de saber o que você acha que pode acontecer. e se eu soubesse eu teria exatamente a sequência perfeita de palavras que poderiam te encantar. mas assim seria fácil. assim eu somente seria você. não te digo o que passa pela sua cabeça, mas sim o que se passa pela minha, e assim, permito que você goste de mim, de minhas ideias, de minhas palavras e do meu jeito de ser.

vamos fazer o agora, o amanhacer está perto mas só será amanhã quando acordarmos do sonho que queremos fazer. hoje a manhã será eterna. você gostaria de saber qual será o meu próximo passo, se deixaria o beijo para depois ou te beijaria agora. se te ligaria na semana que vem, se eu gosto dos filmes de romance que você gosta. você adoraria saber que eu sentiria saudades suas e que você era tudo o que eu precisava. mas assim seria fácil. você não sabe o que penso até eu te contar. quando eu te contar, não se preocupe, será de total sinceridade.

se eu pedir para você ficar e não disser mais nada, apenas fique. se eu pedir um abraço, apenas abrace. se eu te pedir que me ame, farei de tudo para que antes do pedido você já estivesse implorando pela reciprocidade. se eu pedir para casar com você, já estaremos comprando nosso apartamento pequeno em algum lugar afastado. se eu disser que não vivo sem você, nós já estaremos escolhendo a raça e o nome do nosso cachorro de estimação. se eu disser mesmo, isso tudo se eu disser. se você pensar. se eu pensar. se o destino ajudar. se Deus quiser.

terça-feira, 8 de março de 2011

estavam conversando e se entendendo, e aquilo era completamente normal entre os dois. se davam muito bem e consideravam ter gostos bastantes parecidos. ela era apaixonante e ele radiante. desde que se conheceram, notaram as afinidades que cercavam e aproximavam os dois, e agora estavam ali. poderia ser uma oportunidade do destinho ou então uma ocasião que faria com que apenas confirmassem o tamanho do sentimento de amizade entre eles.

sonhos não determinam o futuro, ou pelo menos não deveria ser assim que as coisas acontecem. o sonho que ele teve ha algum tempo atrás não o deixava em paz e o fez refletir. primeiro ficou sem entender o palpite que o seu subconsciente dava sobre a situação, depois desejou que ele estivesse certo.

a fascinação que ele tinha pelo cenário e pelos personagens que formavam o espetáculo que era o céu, o fez ficar parado por horas enquanto observava e contava estrelas. dois pontos cruzaram e rasgaram o céu em duas direções diferentes, mas no mesmo tom de luminosidade. começavam com uma luz muito clara e amarelada e deixavam rastros em degradê até chegar a um tom esverdeado. estrela-cadente ou cometa, duas coisas diferentes ou a mesma coisa. não importava para ele a denominação, mas sim a beleza que chegava aos seus olhos. automaticamente pediu a primeira coisa que viera a sua cabeça.

a fascinação dela era outra. completamente apaixonada por palavras e expressões. ele não sabia de tamanho fascínio da parte dela, mas acabou descobrindo. estavam conversando e ele foi lá e fez o que te parecia cabível na situação. após frustrar-se, sentiu-se um completo idiota, mas não teve tempo o suficiente para se convencer mesmo de que sonhos não se realizam, e aí, aconteceu. não foi exatamente como acontecera no sonho dele, mas tinha sido justamente o que ele havia pedido.

romance em pequenos contos é o que parecia para ele a situação. ela era uma pessoa incrível e o fez ter certeza que se mesmo que não houvesse sonho nenhum na história, ele tentaria tornar a situação possivel do mesmo jeito. ele estava fascinado com aquele sorriso celestial e ela encantada com todas aquelas palavras que chegavam aos seus ouvidos de forma segura e, ao mesmo tempo, suave. palavras que chegavam juntas com beijos que faziam a noite, cada vez mais, tornar-se inesquecível.

não adiantaria enumerar qualidades, qualquer um seria capaz o suficiente de perceber. os defeitos dela é o que a tornava tão... as palavras dele que a conquistaram, agora faltavam. estavam encantados com a situação, mas não é o ontem ou amanhã que importava para os dois, e sim o momento, o presente. e eles aproveitaram.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Desesperada súplica

eu desejei arrancar os meus olhos para que não pudesse mais ver nada. nem pequenas espiadas, nem grandes contemplações. nem ficar mais tentado a admirar-te. desejei também apagar boas recordações, desejei ter raiva de você. quis nunca mais querer saber de você. desejei fazer sumir tudo que me lembrasse você, fazer desaparecer canções e poesias que fiz. desejei não ser mais o que tinha me tornado junto a você. não quero mais ser dependente do seu sorriso, nem dos seus lábios. some da minha vida que é melhor. some de mim que eu cansei de sofrer. some daqui porque eu amo você.

Carnaval sem fim

carnaval no calendário mas não dentro de mim. o frevo tocava ao meu redor enquanto mil pessoas se distraíam, riam e se divertiam sem parar, eu estava ali, mas também não estava. fisicamente, era lógico e visívele que estava presente, mas minha alma não. primeiro desejei, depois fiz uma projeção, na verdade estava mais para um sonho lúcido.

você e eu. um carnaval cheio de blocos alegóricos dentro de mim. vários sóis nascendo sem parar. ali sim eu me sentia feliz. sustentei minha ilusão e vivi tão intensamente tudo aquilo que até até sinto seus olhos cruzarem minha pele como facas afiadas que faziam jorrar, ao invés de sangue, incensos que acendi para não esquecer.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Inseguramente forte

ser inseguro é ser instável. ser pura indecisão. ser ou não ser. ser inseguro não é sinônimo de fraqueza. não é e nunca será. ser alguém que pensa muito sobre as próprias coisas que pensa e que não tem certeza nem convicção das coias, simplesmente é só uma forma diferente de ser. nem melhor nem pior do que qualquer outra. a dialética edifica formas de pensar, constrói mecanismos de defesa, não de ataque, alguém só ataca por não saber se defender.

se os inseguros soubesse o poder que têm em mãos. ter incerteza sobre o sentimento de incapacidade, não é andar pra trás. pelo menos não deveria ser, deveria ser o impulso para frente, deveria ser o ponto de partida para a mudança. mas e aí você me diz: as dúvidas sobre o próprio sucesso iam desaparecer, e ele não seria mais tão inseguro assim. e eu te responderia que é justamente aí que você se engana. ninguém inseguro seria suficientemente capaz de perceber um fato bem realizado. ao invés de contentamento e acomodação, viriam críticas e o sentimento de querer melhorar.

se és inseguro, não te tornes fraco. força é reconhecer os próprios limites e decidir ir em frente. fraco é aquele que reconhece-os e se cerca deles.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

parágrafo único

ao relento. ao engano do abismo do desconhecido você atirou as estatísticas que apontavam um nós. você soprou ao vento, que espalhou por todos os cantos do universo, as chances que tínhamos de concretizar o capricho dos conspiradores, dos arquitetos engenhosos que juntaram dois mundos tão diferentes em uma situação tão encantadora. seus olhos, me lembro como se eles ainda olhassem pra mim, eram bem arredondados e escuros, indecifráveis e tímidos. o jeito que ajeitava o cabelo mecheu muito comigo. seus passos me faziam desejar que você viesse até mim. seu olhar era uma mistura de perplexidade e encanto. nos seus ouvidos entravam as minhas palavras cheias de jogo-de-cintura e eu sentia a sua pele se arrepiar. eu senti que aquele momento era poesia, eu senti que aquelo momento se tornaria eterno por alguns minutos. por alguns piscar de olhos eu eu senti que você também me desejava. nós estávamos falando sobre sonhos. nós estávamos construindo um sonho. eu perdi o sono e quis te cantar uma música que poderia fazer para você e, do fundo de minha alma, só queria estar em seus braços ao menos uma vez. estávamos atônitos com a situação e não nos preocupamos muito com as circunstâncias. mesmo depois de tudo, estou aqui de novo a depender de outro jogo de situações, e que seu mundo decida cruzar com o meu novamente. o destino quem vai dizer.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Interferência e acomodação

hoje eu me vi questionando sobre coisas que venho postando aqui. pensei bastante sobre as ideias que defendi nesse blog sobre sermos o que queremos ser, sobre o ser natural e o ser funcional (se é que podemos chamar assim). as antigas dúvidas, e ainda persistentes, me alertavam sobre o quem sou? e me apontava o eu sou quem quero ser. mas agora me veio a mente: o que eu quero realmente ser? como posso me basear e tomar como base um ideal, sem nem saber do que ele é feito, em que ele consiste? como posso hastear a bandeira do 'sou quem quero ser', se sou mudança? se sou instabilidade pura? hoje sou esse, amanhã quero ser aquele.

oscilando entre os papéis que escrevo para a minha vida, eu vou sendo o que me convém ser. mas como posso me definir alguém, se o que quero ser sempre é algo diferente? não existem várias definições para um mesmo significado. o preto é preto e o branco é branco. então eu seria ninguém e me ausentaria da culpa que essa crise de identidade me causou? ou eu seria vários alguéns? preciso tomar um pouco de coragem. preciso de um pouco de ar. aqui dentro de mim está muito apertado, não cabe mais ninguém além de minhas várias personalidades. pronto. agora, além de confuso, sou um egoísta. as vezes me fecho mesmo. é um mecanismo de auto-defesa que não te permite me julgar, se me julgares estará errado, e aí serei sarcástico. não que sarcasmo seja quem eu sou. mas sou tudo isso. sou inconstante.

sou muita calma. muita paz e muita luz. medito, reflito, respiro. ouço, absorvo, respiro. e aí, mais uma vez, oscilo. giro e caio de costas. já não sou mais eu. na verdade sou, mas do mesmo jeito que não consigo explicar o tanto de confusões, não consigo conter tanta raiva. eu tenho algo ruim dentro de mim. eu sou algo ruim aqui fora, e lá dentro estou, ao mesmo tempo, tão confortável. estou me acomodando. e só aí, acomodar e mudar se entrelaçam.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

As crônicas do meu pai - Controlando pragas

Antônio, que era jagunço, foi ao médico. o interior em que morava não era lá grande coisa. o médico cuidava da saúde humana e dos animais e também dava dicas de plantio e colheita. antônio não estava doente, pelo menos ainda não. ficaria se as formigas continuassem a destruir a pequena horta que tinha no quintal de casa. Mariano, o doutor, era formado no exterior, mas havia sido criado com Antônio, então era amigo pessoal - além de entender sobre controle de pragas. Mariano estudara anatomia e fizera muitas pesquisas biológicas na faculdade de medicina também, mas nunca esquecera dos ensinamentos de sua vó, puro conhecimento popular.

então o que poderia ser feito, mediante tal estragos? perguntava Antônio a si mesmo e ao amigo. então eis que veio a solução. Antônio nunca estudou, então mesmo que desconfiado, foi para casa e fez o que foi mandado.

traçou o caminho das formigas, viu o horario em que elas passavam. pegou um ponto em que elas passassem e colocou um pequeno rastro de tabaco, comum na região, e no final do rastro, uma pedra. deixou lá durante uma semana, e mesmo curioso não foi averiguar a situação antes do prazo estipulado. sete dias se passaram e ele encontrou novamente com o seu amigo de infância na rua. após muito conversarem, surgiu no diálogo a pergunta que não queria calar: e aí? deu certo? e por incrível que pareça, tinha dado. Antônio continuava sem acreditar, mas tinha dado certo. sem se conter com tantas questões, perguntou como aquilo funcionava e eis a explicação:

as formigas trabalham em fila pelos rastros delas. seguindo caminho a frente, a medida que passassem pelo rastro de tabaco, devido a seu grande sentido olfativo, elas iriam cheirá-lo e isso ia fazer com elas espirrassem batendo a cabeça com força contra a pedra que havia no meio do caminho.

essa história é verdadeira. diz o meu pai.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ao apagar das luzes

mesmo depois de todo o esforço que o céu fez para que o acaso apagasse todas as luzes, para ser feita sua presença, foi despercebida a beleza. por mais um dia foi desperdiçado tanta grandeza e tantas estrelas. eu estava sentado e assim que a cidade se apagou, corri para o lado de fora e me sentei, tentando apreciar cada pedaço que pudesse ver no mar de constelações. me comparei frente a tal esplendor, que insignificância essa a minha. me coloquei no meu lugar de admirador e passei o resto da noite assim. pesquei algumas estrelas cadentes e improvisei alguns pedidos , ainda na esperança, arrecadada na infância, de vê-los realizados. e se o céu as visse e colecionasse milhares dela, só faria um pedido: mais valor. mais valor a toda essa maravilha que temos bem em cima dos nossos narizes. lutamos tanto cada vez mais por mais energia, e nos esquecemos que quando as luzes se apagam o espetáculo começa. e nem as nuvens estragam o show. o céu fica todo cinza com alguns tons de melancolia, o que é uma beleza ímpar para quem sabe mesmo admirar. o céu é tão grandioso e tão independente, e mesmo assim, com toda nossa insignificância, só olhamos para cima quando é para dizer: Deus nos acuda.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Precipitações dois

todos riram e ele ficou sem reação. enquanto a professora falava ele já contava os passos e refazia o caminho de volta para a saída. demorou uma semana para voltar pra escola. e foi o ano inteiro assim. nem uma palavra. nem um contato além do ocular.

última semana de aula e eles então tiveram a chance certa para se conhecer. ela se atrasara por causa que havia chuvido demais e o carro de sua mãe havia quebrado, e ele sempre estava atrasado. tiveram que esperar o toque do segundo horário. acabaram se vendo sentados na mesma mesa esperando o tempo passar. ela fazendo alguns exercicios de física e ele com fones no ouvido. sobre gravitação, questão conceitual, verdadeiro ou falso. ela não sabia a resposta. foi quando ele soprou alguma coisa e ela não entendeu.
- o que você disse?
- disse que é falso.
- e como você sabe? nem da pra ver a questão daí.

sem tirar os fones do ouvido, se ajeitou na cadeira, pegou um lápis do bolso e escreveu de forma que ficaria de cabeça pra baixo no caderno dela. enquanto ela virava e tentava ler, ele abria um sorriso. quando se deu conta, abriu um enorme sorriso envergonhada. gravitação nunca foi tão simples, nove números e o celular dele, ao invés da resolução, já estava anotado. se conheceram e um clima rolou desde a primeira vez. se falavam sempre na escola, e quando ele faltava se falavam por telefone. final de tarde, era o horário que ele chegava da praia e ia passear com o cachorro, e marcavam de andar juntos.

logo começou a faladeira. amigos e amigas dela estavam preocupados por não terem tanta certeza de ser boa a companhia dele para ela. "o pai dele é doido", "ele é um drogado, um vagabundo." mas ela não lhes deu ouvido. apesar de a primeira impressão ela ficara com um pé atrás, mas logo desencanou.

ele não apareceu na segunda na escola, mas era normal. ela começou a notar algo estranho quando viu que ele não atendia o celular. final de tarde na praça e, nem ele, nem o cachorro dele passearam por ali. e foi assim durante duas semanas. as manhãs dela estavam comprometidas. ela não conseguia dormir direito, madrugadas a dentro acordada, mal tinha tempo de aproveitar o nascer do dia com café que ela gostava tanto. ia fazer um ano que ele tinha se mudado de volta e onde será que ele estivera. foi quando seu consciente resolveu ceder as acusações. quando ele reapareceu, ela não quis nem saber. o acusou de ter brincado com ela e sumido, o chamou de irresponsável, de vagabundo e outras acusações fundamentadas em sua total instabilidade. agora ela era a menina insegura que nunca quis se tornar.

Precipitações

ela acordou cedo. tinha chegado tarde em casa após uma noite de festa com as amigas, e mesmo assim, já estava de pé ao despertar do dia. ela gostava de tomar um café na varanda vendo as pessoas que passavam cedo para trabalhar. ela adorava os dias de chuva, e ao invés de dormir mais, levantava mais cedo. aproveitava cada gota que precipitava-se do céu e tranquilizava a sua alma.

fazia a mesma coisa todos os dias. levantava, preparava o café e ia para a varanda. e lá, vários pensamentos rolavam, era só ela e eles ali. gostava de pensar e repensar sobre tudo, e ultimamente, o que mais lhe atormentara, eram pensamentos sobre ele. sobre como a história dos dois foi tão curta e como ela tinha posto um fim de forma insensata por causa de um julgamento errado.

eles já se conheciam de vista há algum tempo, desde que no meio do ano passado ele aparecera pela vizinhança passeando pela pracinha com o labrador. era a rotina que faziam os dois se cruzarem. ele e o labrador e ela sempre de passagem; escola, amigos, padaria. trocavam olhares, mas nada além disso. até o ano em que ele se mudou para a escola dela. recém-transferido da califórnia, onde o seu pai trabalhava antes de ser transferido de volta para aracaju.

café, chuva, uma folha e vários rascunhos. ela não era uma menina tímida, era segura e determinada. vinha de uma família classe média baixa e se esforçava muito nos estudos. sonhava em ser psicologa, profissão que sua mãe lhe apontara desde que começaram a discutir na fase da adolescência. era muito observadora e conseguia sentir e diferenciar profundidade nos sentimentos, ela era muito sentimental.

início do ano letivo e lá vem a professora no primeiro horário do primeiro dia de aula. no meio da primeira aula veio ele, entrou de mansinho pela porta e quando estava chegando perto de uma cadeira vazia foi descoberto. ninguém havia prestado atenção naquela presença estranha, até a professora de biologia gritar com aquela voz irritante. ele parou de costas e todos olharam para ele. demorou um pouco para ser reconhecido, já que só havia sido visto com o cachorro do lado. mas, sem dúvidas, era ele.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tornar o amor real é expulsá-lo de você

Exorcisei meus medos para parecer mais seguro e aí esperei. Você veio e quando viu a embarcação que te ofereci, você cedeu, apostou que ali não viraria em hipótese alguma e decidiu viajar comigo. Pedi sua mão e não quis só o braço, quis você por inteira, quis teus olhos profundos e teu corpo. Quis teu coração e a tua alma. Eu te fiz promessas mil e você confiou, e sem que pedisse, se atirou em forma de mergulho no mar onde eu disse que estaria te esperando, onde eu disse que te mostraria um mundo mais bonito e sem preocupações onde você deveria estar, onde alguém com uma beleza igual a sua deveria morar.
Você mergulhou de cabeça nisso e agora estamos aqui. Me fiz seguro para poder sustentar toda a estrutura, para que vento nenhum que chegasse, derrubasse tudo que construiríamos. Me fiz estável para poder suportar suas dores, tristezas, alegrias, aspirações e devaneios. Me fiz amor, me fiz melhor, faço de tudo porque é o que você merece.
Eu sou doido por você. Obrigado.

Há relação

entre o óbvio fantasioso e a duvidosa realidade, eu vou passeando pelas ruínas da vida estranha e solitária que levei durante meus 50 anos. hoje é meu aniversário e não sei o que fiz durante todo esse tempo de útil. a maioria do tempo passei escrevendo livros, poesias e cartas de amor. vivi com mil mulheres diferentes e amei a cada uma delas. nem mais amor, nem menos amor. apenas amei a cada uma. passei cada segundo dos meus 50 anos de vida na companhia de alguém, e hoje não é diferente, e mesmo assim me sinto mas só que nunca. família não tenho, herdeiros (que eu saiba) não fiz, amigos estão por aí. fui feliz sim, claro e evidente que conheci a alegria nos dois mil braços que me acolhi e nunca soube o que é o choro e a tristeza.

a quem quero enganar? entre os próximos vários segundos de silêncio e o grande bufar de descontentamento, desacelerei os pensamentos que eu mesmo estava forçando. não posso mais me enganar. 50 anos. não sou mais um menino. não sou mais aquele cara, que mesmo tímido, conseguia estar presente em todos os lugares. que mesmo calado, muitas pessoas adoravam conversar. alegre, romântico, boêmio. quem eu sou? quem eu fui? a melancolia que me invade, me arrasta por todos os dias de vida, por todas as noites de farra e sono que tive, por todos as manhãs em que acordei com uma mulher diferente e mesmo assim me senti sozinho. o que faltou? o que falta? será que não basta toda a ostentação de uma vida a um? não sei o que se passa mais em minha cabeça. não sei mais o que quero que se passe. não sei mais a relação entre o meu eu impresso nas páginas do destino e a a minha projeção do que quero ser. o que quero ser? o que quis ser?

amado. eu sempre fui admirado e recebi muito carinho. mas nunca senti o amor de verdade. nunca vi nada tão sincero e, mais importante, inocente. estive na cama com muitas, mas todos os olhares que me liam e julgavam eram de pena. entre o passado e o presente, já não havia mais espaço para pensar no futuro. não havia mais futuro. eu completo mais um ano hoje e sinto ter morrido há alguns aniversários. então eu faço o caminho inverso. paro com o passeio por entre minha vida e volto ao hoje e me jogo ao físico. em minhas entranhas corre o sangue e o dna que não difundí.

Quimera

respirava ofegante e transpirava sem parar. parecia até que eu estava fazendo algum exercício físico; o meu coração estava disparado e minhas pernas doíam muito. estava dormindo quando de repente tive um pesadelo. estava tentando convencer a um grupo de pessoas sobre algo e todos estavam prestando bastante atenção em mim. vieram me dizer o quanto eu era bom no que fazia, e eu já estava começando a me sentir bem em meio a tantos elogios.
sem mais nem menos, o cenário havia mudado. agora eu estava sentado e ao redor estavam aquelas mesmas pessoas que me inflavam o ego, mas agora eles riam de mim. gargalhavam e apontavam em minha direção. dava para ouvir algumas vozes que diziam por trás das risadas: "ele acha mesmo que sabe fazer alguma coisa" e "tudo que ele faz é uma grande besteira atrás da outra". aí eu me levantei, esbarrei em alguns rostos desconfigurados e comecei a correr sem parar, quanto mais eu me afastava, mas as vozes aumentavam em meus ouvidos. e aí, acordei.
tentei chorar mas não consegui. tentei gritar de raiva, mas não conseguia superar em nada o sentimento de frustração que tinha trazido comigo do sonho assim que acordei. o quarto ainda estava escuro. era uma noite de inverno e naquele ano as estações estavam muito intensas.
me levantei e fui até a cozinha. sentei um pouco enquanto tomava um copo de água. tentei reproduzir na minha cabeça a voz de algumas pessoas as quais eu conservava sentimentos bons e recíprocos, mas estava tão atordoado e não conseguia pensar em nada além do pesadelo. tive medo de tentar dormir novamente. tive medo de que amanhecesse e, que a luz da manhã que entrasse pela janela, revelasse um cara inseguro e incapaz. o clima de melancolia tomou conta do meu quarto inteiro, e depois da sala, os sofás e a minha poltrona favorita eram pura tristeza. ao contrário do meu pesadelo, elas choravam só de me ver passar. tudo na minha casa era choro, e o pior, não era um sonho.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Volte logo

dadas as circunstâncias
longe eu me encontro
e a perigo

devido as distâncias
quase morro
e te digo

sou metade
sou uma parte
daquilo que nos chamam
do inteiro
do completo

sou tudo
sou nada
sou tudo o que você quiser
sou nada sem você

então insisto
volte correndo pra eu te ver
diz que pensou em mim
enquanto pensei em você

e ai me abraça
assim que chegar
diz que não tem graça
viver e não me amar

Folha de papel

você já parou para observar cada célula do seu corpo? observar como cada membro seu se movimenta; como cada parte sua quisesse ter autonomia mas estivessem todas ligadas ao todo. cada unidade faz parte do completo, do complexo. metabolismo, ação, reação. eu sou tudo o que vejo quando paro para me observar. sou até mais. a complexidade que nos cabe acaba nos afastando do nosso auto-conhecimento e a falta de tempo faz com que momentos como esse passem despercebidos.
esse sou eu. esse sou cada eu. mas sou mais que órgãos, sangue e fios de cabelo. sou também o que não posso ver. sou do interno para o externo em frações de segundo. sou puro sentimento. sou ódio e tristeza, sou amor e bondade, sou instabilidade à flor da pele. sou a letra, a palavra transcrita. vou das células à palavra impressa no papel.
esse sou eu, me entendendo e tentando ficar em paz. esse sou eu, me entendendo e vivendo. preciso conhecer o que se passa aqui dentro para entender o que acontece ao meu redor. então eu me amo para poder amar alguém. me compreendo e me tolero para poder ouvir outro alguém.
esse sou eu. sonho acordado com uma família, observando outros membros e células que vieram de mim, mas não me pertencem. sonho mas estou acordado. sou insônia.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fazer questão

eu faço questão de passar na sua cara tudo o que já fiz por você e por todo o resto das pessoas que nos cercam. cansei de contar os momentos em que me controlei, não por mim, mas por você. por respeito. por amor. eu fiz tudo o que fiz por amor e é assim que vc me tem. marginalizado e excluido dos seus devaneios. afastado dos seus sonhos, dos seus ideais de vida perfeita.

eu não quero ter que gritar tudo de novo para ter certeza de que você me ouviu. então repito baixo na minha cabeça tudo o que você falou em seus mínimos detalhes; expressões, tons e palavras. sou muito menos do que fui por você, e sou menos ainda quando você bate de frente pra mim. em razão do desespero, ou seja lá qual for a arma que você utiliza quando se vê acudida, você me ataca com palavras ásperas e pontiagudas que costumam abrir retalhos em meu peito. e lá estou eu, chorando no meu travesseiro tentando remendar os pequenos buracos.

eu não vou mais discutir. é o que prometo todas as vezes em que você vem reclamar de algo que eu não fiz. eu estou certo. agora não estou mais. se te olho, você não aceita a afronta. se não te olho, você reclama de desprezo. então chega a hora que eu desejo que você pare de falar. que você pare de me olhar com esses olhos de reprovação. com esses olhos fundos de negação. queria estar em seu abraço agora, mesmo sempre te ferindo, eu sou doido por você.

para e olha pra mim. deixa as minhas lágrimas caírem e rolarem pela gravidade que nos faz ajoelhar enquanto pedimos perdão e misericórdia. essa é a mesma gravidade que agora havia me derrubado no chão. estirado e cercado por lágrimas que não pararam de escorrer, eu sou apenas um pedaço da parte da minha baixo-estima e todos os defeitos que mais tarde irão ser varridos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ao mar o que é do mar

ele era mais um moleque que nasceu e cresceu na praia e foi criado no mar. naquela região eram vários. os mais antigos tiveram filhos, que tiveram filhos, que tiveram outros filhos. gerações e gerações de ratos de praia. a lei naquela cidade feita de areia e ondas era o respeito e o espírito do aloha. no mar, pegando onda, curtindo no luau a noite ou em qualquer lugar, eram todos bons de alma. a cidade era banhada pelo oceano e protegida pelos encantos que existiam. uns chamavam de natureza, outros chamavam de misticismo.

o moleque era simples e como todos, adorava quando o sol raiava flamejante e não dava vento nenhum. as ondas quebravam numa direita secular infinita e ele dropava em todas. mas naquele dia foi diferente. o mar tava agitado pós-arrebentação, já tinha acontecido outras vezes, até com frequência, mas ele não temia nada, respeitava o mar, mas não foi o necessário. se divertia tanto fazendo o que mais gostava que não percebeu o quanto a maré estava forte e estava o levando cada vez mais para dentro. o que chamavam de natureza era a força que regia todas as gotas de água do mar. de repente. subitamente. um susto. um puxão e o empuxo da água. a prancha foi parar longe e ele foi fundo. iemanjá segurou em sua cintura e tomou mais um nativo para si. era o preço que tinha que ser pago por tamanha perfeição em ricas medidas.

nunca adiantava lutar. quando tinha de acontecer, simplesmente acontecia. ela era uma mãe muito protetora, e entendia que aquilo era para o bem de todos. quase que um sacrifício. e não adianta sacrificar algo que não faria falta ou não valeria a pena. o mar sabe ser bonito, mas também sabe ser traiçoeiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

eu tentei dormir. juro. não foi por enrolação ou manha que fiquei bolando de um lado pro outro brincando com o sono. enquanto ele ia e vinha, eu ia perdendo a paciência e meu cérebro, ao invés de relaxar e descansar, não parava de pensar em várias e várias coisas.

fechei os olhos e tentei manipular meus pensamentos. me concentrei até tentar achar algo que sintonizasse com os meus sonhos. de repente lá estava eu. parado em frente àquela rua que não existia. no final da rua tinha uma casa que também não existia. era noite e chovia, tanto fora do meu quarto, quanto no meu pensamento. o balanço que havia em frente a casa estava parado e não havia ninguém nele, nem em algum outro cômodo da casa. o portão grande e pesado, que servia de entrada, estava aberto, passando por ele havia um jardim onde estavam várias caixas. foi aí que me dei conta da placa de vende-se que parecia ter sido colocada ali há um bom tempo.

caixas pequenas guardavam coisas pequenas. caixas grandes guardavam coisas grandes. mas o que me chamou atenção mesmo não foram nem as grandes nem as pequenas, mas sim as caixas de porte médio que estavam separadas. nessa hora meu espasmo de sono já era profundo e fui cada vez mais fundo no sonho. eu não precisei abrí-las para saber o que tinha dentro, fui eu mesmo quem as organizei. fui eu quem havia deixado o portão aberto e que tinha colocado aquela placa de vende-se. as caixas medianas estavam cheias de sentimentos e lembranças minhas daquele lugar, coisas que eu tinha visto e vivido ali. na casa não tinha recordações porque eu as guardei em caixas. na casa não tinha ninguém porque eu havia matado todos.

no fundo aquela rua existia e aquela casa era reflexo de algum lugar real que eu fiz questão de esquecer. vivi um bom tempo ali e aquilo estava no fundo das minhas lembranças. mas foi melhor esquecer. tive que voltar lá pra lembrar do que eu tinha tanto que esquecer e que, como um sinal de alerta, minha própria mente fez o papel de me chamar a atenção em relação ao que eu deveria descartar, pois o futuro é muito promissor na casa onde estou agora, e nas lembranças em que vivo o passado é o passado que naquela casa ficou. não vou me ancorar, vou deixar que o vento leve a embarcação nessa morada sem muros onde estou.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Articulado, suingado e bêbado

era noite. ele estava de um lado e ela exatamente do outro. ele estava usando sua camisa favorita e uma calça que até era arrumada, em comparação aos seus padrões de vestimenta. ela usava um vestido simples e estampado, não muito curto e nem muito longo, tinha a pele bronzeada e os cabelos encaracolados. ele conversava com seus amigos sobre futebol e música enquanto tornavam copos e copos de cerveja e ela conversava coisas como política e valores morais. eles já se conheciam, não sei de onde, de outras vidas ou de outros planos, ou se foi somente a cantada que ele estava usando quando eles se esbarraram na porta do bar. realmente, foi a impressão que ficou. eles se deram tão bem e conversaram por tanto tempo que parecia mesmo que eles já se conheciam. ele falava bem demais para o jeito que se vestia e pela barba que acrescentava-se àquele visual. ela falava devagar, pausadamente e com um ritmo impressionante, suas palavras pareciam trovas ou repentes, mas se vc voltasse a prestar atenção somente aos lábios dela, você se devolveria a realidade e perceberia que ali era só uma conversa. se deram muito bem, mas deixaram o destino resolver o futuro deles. ela saiu por um lado, ele ficou por ali mesmo, e a noite continuou sendo noite.