segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Juras

Eu cedi ao desejo
de sede que tinha
de te fazer minha
pra mim és rainha
rei, sou coroado,
como diria o ditado
errado é não te amar
e se jurar bem jurado
amor eternizado
esquecerás o pecado
que é não ceder ao desejo
nem de um único beijo
nem de um único abraço
de seu amante amado,
me liga a noite
a tarde ou mais cedo

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Hipnose

Ele a olhou como se estivesse engasgado, tentando, sem sucesso, pronunciar uma sílaba sequer. Ela entendeu sua agonia, compartilhou de sua angústia. Viu em seus olhos perdidos, o desejo de se encontrar, e teve vontade de acolhê-lo em um abraço, como se protegesse a uma criança. Balbuciaram-se palavras como uma conjuração de um feitiço antigo, mas nada foi ouvido. Ele teve vontade de desviar o olhar e sair de fininho, como se não pudesse viver com todo aquele desentendimento. As pernas dele tremaram quando as dela se moveram em sua direção. Tão forte quanto estricnina, sua presença provocou-lhe arrepios. Por todo o corpo e alma só ecoavam o choro de uma criança que acabara de nascer. Ela viu em seus olhos e ele soube.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ciúmes

Abre a porta meu bem
o que é isso?
Por que esse ciumes, em?
Eu tava ali na esquina
no botequim
e aquela menina,
eu posso explicar,
ela só queria saber,
apenas esclarecer
o porquê de tanta beleza
na escrita da poesia
disseram que eu era o poeta
da rua, do bar e da lua
então eu falei que era fácil
que em casa estava a inspiração
pros versos que fiz no verão
e o motivo pra ter ficado em casa
quando o inverno a rua castigava
e que quando saía pro mundo
levava um sorriso confiante
por ter deixado tudo
que é mais sagrado em sumo
em sono aconchegante
falei pra ela que deixei na cama
o motivo para aquelas rimas
e disse que quem ama não brinca
então acabei o meu copo de cerveja
fechei a conta da mesa
e subi correndo pra te ver
então abre a porta vai
quero agora te prometer
olhando em seus olhos
que ninguém gosta tanto
muito menos quanto
eu gosto da mulher que amo.

Penitência

Colecionando desilusões,
desconstruindo paixões
e desmontando o coração.
O rosto chora, a alma implora,
a existência resumida a penitência.
Em seu quarto, à horas, a menina,
desolada ora e pede por seu amor de volta.

A lua maltrata as lembranças
de quem prometeu estrelas a outro alguém,
a noite vagarosa e fria tortura a mente
dos que sentem a falta de outro alguém.
"Por que tem que ser ser assim"?
Triste fim essa história que não teve início.

Amores estragam músicas que amávamos
poesias que líamos com esperança
de filmes que assistíamos desde criança.
Todo som só faz lembrar dela
e os versos cretinos
te fazem vê-la ainda mais bela
mesmo com a ferida ainda recente
o filme ainda passa em nossa mente

Domingo era pé-de-cachimbo
mas virou com ele o dia do sofá
ver, deitada, o futebol
torcer junto pro time enfim ganhar
almoço em família, rede, sol
agora não tem mais nada
e ainda responder pra minha tia chata
que não sou mais a namorada.

O amor geralmente dói e quebra
na frente conserta e depois atropela
cai do céu como providência
mas as vezes machuca como consequência
Vivemos sofrendo ou sorrindo
de amor vivemos e não escondemos
somos felizes assim.

Mochilagem

Foi lendo Kerouac que tramei umas viagens
do Tibete até o Iraque, da Itália ao Macapá.
Vou comprar duas passagens, arrumar minha bagagem
e sem pilantragem quero mesmo te levar.
Eu sou louco e você sabe, por você exclusividade.
Nós estamos a margem de um sonho realizar.
Não é preciso coragem, se pensar com honestidade
sei que em qualquer cidade comigo cê quer ficar.
Retoque a maquiagem, ar de seriedade,
aproveite a paisagem pro momento eternizar
numa foto, para rirmos da saudade sem maldade
por toda a eternidade ao seu lado quero estar.




Vamos devagar

Calma, amor, vamos devagar. Eu sei, você gostou mas vamos devagar. O dia passa e a noite vai chegar, aí a gente se encontra no mesmo lugar pra te perguntar sobre o seu dia, e dizer que bem que você podia me dar aquele beijo de despedida sem precisar estar de saída. Você se amarrou, eu sei, mas vamos devagar. Se tá na chuva é pra se molhar, eu sei, mas vamos devagar. Nós vamos ficar, nós vamos. Nós vamos dançar, nós vamos. Não tem problema em fazer planos, mas por outras vidas já passamos, então vamos devagar só pra não se machucar. Eu vim foi pra ficar, então não precisa duvidar. Vamos fazer amor, nós vamos. Caminharemos na praia, nós vamos. Não é por acaso ou por engano, nós somos o que somos, então vamos devagar só pra poder voar. A gente fica assim juntinho colado, rosto a rosto, perna trocada pra sentir o seu gosto. Escorados na janela, na cozinha cravo e canela, na cama homem e mulher; é o que todo mundo quer -felicidade de domingo a domingo. Não estou nem um pouco arrependido, muito menos apressado. Esqueça o passado e vamos devagar, um passo por vez, esqueça a timidez e vamos a vida inteira juntos ficar. Assim devagar pra nunca atrasar. Sem pressa mas com a certeza de que iremos chegar.

Valsinha

Ruivos encantos os
Seus cabelos são
Um sonho pra viver
Sonhando a vida é
Melhor assim: você
Perto de mim pra ver
Sair o sol, ouvir
Tocar um som que te
Lembre sua casa
pra que assim possa se
Sentir tranquila pra
Poder trocar ideia
Falar sobre qualquer
Que seja o assunto
arrodear o mundo
olhares profundos.
Adivinho tudo seu
Mostro o mais belo eu
E deixo assim pra ver
Você gostar de mim
E a gente sabe que
Nunca termina a
Vontade de se ver
Te disse te amo
Te disse que os anos
Custaram a passar
Mas eu cheguei e
Vim aqui para fazer
Você feliz ao som
De jorge ben, menina
Por causa de você
Valorizei a rima
E fiz essa valsinha
Pra dizer que você
é o que eu mais queria
Não te farei mal
Só te trarei a paz
E olha, veja só,
Meu bem, me chama
Você não é a primeira
Mas a ultima e
Unica que reina
com a beleza nos,
mais belos vistos,
que a olhos nus
pude conhecer.

Amante amado

Ela não quer mais
ele cisma de vez
mas na primeira chance
ela liga e faz
a chama reacender
de olho no lance
a regra é clara
quando um não quer
não tem briga
e também o contrário
sem consentimento
não tem reaproximação
pode ter sentimento
mas não tem ação
mordem as orelhas
arranham as costas
noite claro, olheiras,
ele não liga, ela gosta
madrugada estrelada
os dois fugiam
do que eram
mas não do que sentiam
se refugiavam
se defendiam
recordavam
dormiam
se amavam
por anos assim
por todas as vidas
em que tiveram
até se encontrar
entre idas e vindas
eles souberam
arriscar.

Como dizia o síndico

Somos síndicos das nossas próprias almas. Administramos as nossas falhas, admitimos os erros, e prestamos contas sobre o fechamento do dia em relação a nossas ações, se fomos coerentes com nossos princípios. Somos agentes de mudança, mas somos nossos próprios críticos. Nada dói tanto quanto o arrependimento, nosso próprio reprovamento, olhar no espelho e sentir desprezo. Peso na consciência, retroativa ciência, choro na essência. Gosto de ser, como diria Raul Seixas, metamorfose ambulante. Me amarro na ideia de ser exagerado, como Cazuza, ou o último romântico dos Los Hermanos, mas nada me deixa mais orgulhoso do que ser o que eu quero ser, de ser completamente amado e ser irremediavelmente amor. Vinte e quatro horas por dia eu sou paciência, sete dias na semana eu sou tranquilidade, doze meses por ano sou feliz, e todos os anos por vida continuarei a ser amor, e quando eu não for nada disso, serei perdão. Nada emociona tanto quanto o perdão, nosso próprio recomeço, olhar no espelho e sentir orgulho. Somos síndicos e administradores falhos, erramos um bocado e erraremos muito mais ainda, e acabamos abrindo feridas e deixando estragos por onde passamos, mas a vida é isso. Amor, perdão, paciência são a chave para a felicidade diária. Que você mude o mundo, mas depois de conseguir mudar você mesmo.

Filho

Deixo as estrelas caírem aos meus pés
e os tragos do cigarro me tranquilizarem
transcendendo a máxima que disseram
calma na alma, amor e paz.

Um samba-rock no estúdio
a cabeça de vez nos estudos
a minha coroa não me deixa esquecer
que preciso disso pra poder crescer.

Sou moleque e irresponsável, eu sei,
no reino da preguiça, eu sou o rei,
alguns querem que eu diga que mudei
mas sou exatamente o que sempre sonhei.

Durmo tarde, acordo tarde, sem sonhar,
acordado alcanço meu nirvana pessoal
choro quando tenho vontade de chorar
e me calo pra poder melhor me escutar.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

TPM

Eu sei que está tudo bem, que a vida esta ótima, talvez parada, mas estamos bem. Estávamos, estamos, ficaremos. Você não precisa gritar, mas pode se quiser. O dia está lindo, mas olhando bem, você está certa, que coisa chata! Concordo com toda a sua revolta, o mundo poderia ser mais fácil. Quem mandou essa calça encolher? Não precisa ter paciência, olha só que milagre, alugaram o seu filme favorito e tem, na geladeira, chocolate suíço. Não precisa abrir o sorriso, continua emburrada, fechando a cara para os meus sentidos. Eu acredito que não é por mal, acredito. Te amo e isso não é castigo. Você esparramada na poltrona, sem questão de disfarçar o pijama, eu sorrio sozinho, me divirto contigo.

Olha o poema que escrevi, não brigue comigo, não é de você que estou rindo, é a felicidade transbordando, logo mais você estará de novo reclamando, então já adianto: você é linda 365 dias por ano. E se vamos sair? Cinquenta e duas roupas no armário não servem, sapatos, saltos, sandálias não prestam. O cabelo lhe parece horroroso, mas já te garanto, difícil seria concordar com a sua opinião e te dar a razão, você é linda e continua sendo, mesmo querendo assassinar-me, continuo feliz sendo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Relógio quebrado

Ser ou não ser não é mais a questão,
me desculpem Shakespeare, Jobim e Platão,
mas ninguém nunca esteve com a razão,
até o momento em que as luzes se acenderam
e ela entrou no palco ajeitando os cabelos.

Solução pro meu dilema é pouco, Tom,
olha que espetáculo, é um dom!
A voz mansa, cantante
combina com os olhos, também radiantes.
Enrolei seu dedo com prata e te dei um relógio
quebrado, sem jeito, pra hora não passar, analógico.

Uma viagem sem volta,
no mundo, dar voltas.
Estou bem com a sua chegada
Não irei te pedir nada.
Fascistas, budistas, pacifistas, árabes, muçulmanos,
concordariam com o que eu disse e até fariam um plano
Se uniriam, eu sei, para tentar entender
como existe alguém tão boa quanto você.

O que querem as mulheres?

As mulheres e seus mistérios
da mente aos pés,
dos olhos aos saltos,
das olhadas que saltam.
O que elas pensam?
Maluco o que souber
o que querem as mulheres,
o que as fazem felizes
e o que as deixam tristes.
Elas motivam sorrisos,
com pierciengs em umbigos
batons, maquiagens, sombras,
flores, perfumes, contas.
O que querem as mulheres?
Querem por inteiro,
querem em partes,
por uma noite
ou por uma tarde.
O que desejam fazer
com os homens que caem
no encanto do canto
de sereia?
Pobre do malandro
que anuncia seu jogo
e cai mesmo assim
sorrindo meio bobo.

Marcam a hora
e chegam com demora
atrasam e atrasam
"Faz parte do charme".
Alegam sorrindo
como se dissesse
"valeu a pena esperar, né?"
O que você quer, mulher?
Diga pra mim
antes que eu enlouqueça
tentando entender
o que você deseja
de mim.
O que de mim você quer
eu seria tudo pra você
mas se você deixasse ser.
Ligar no dia seguinte
ou deixar pra depois,
pegar o telefone
ou deixar pra depois.
O que querem as mulheres?
Ficam inseguras,
se gostam, se acham maduras.
se aceitam têm medo
de perder.
Elas também têm medo
de perder o sossego.
Já o juízo fica a nosso cargo
de perdê-lo, claro!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Netuno

Deixar que o oceano seja
segunda pele
que o mar, que anseia
pela minha prece,
me carregue por quilômetros
décadas e anos
me guarde no estômago
de alguma baleia gigante
me conserve o mesmo
e me entenda o apelo
de que não posso
não consigo.
Netuno, se eu vê-lo
me acompanhe ao fundo
do mais perigoso recife
me mantenha astuto
dormindo estou em declive
Eu não consigo viver mais
nem sobreviver assim
me tiraram a parte que cabia
o universo e mais cabia em mim
me cabiam as estrelas
mesmo aquela vistosa
que já desaparecera
em mim cabia algo maior que o tempo
foi uma linda princesa quem me deu
de um reino tão distante
assim como o seu
a mesma me prometeu
que nunca me esqueceria
e disse: meu coração é seu!
Então me diga, oh grandioso
detentor do tridente
se esse trágico ocorrido
te deixa também ansioso
ou apenas sorridente
por estar solitário e esquecido
aqui nesse reino proibido?
Não ria da minha desgraça
não estou fazendo alarde
sinto que ela me esqueceu
me falta alguma parte
Céu, mar, estrela-maior
quantas ondas precisarei pegar
para esquecer que dói
para entorpecer os olhos
para enfim sossegar
nem que me destinasse a morte
e enfim sossegasse a sorte
estaria enfim satisfeito
então se quiser assim fazê-lo
saiba que não estarás ajudando
muito menos atrapalhando
por capricho ou pirraça
só quero que você arranje
uma passagem sem volta
partindo daquela praça
e talvez eu cante
o som que você gosta
imitando pássaros
sobrevoando horizontes
mas me ajude logo
preciso vê-la
se isso é saudade, que assim seja
conheci os anéis de urano
vi o sol nascer em marte
preciso dizer que a amo
antes que essa dúvida me mate
Será que ela me esqueceu?
Se sim, não posso imaginar
o que será que aconteceu
eu preciso parar, pensar, agir, voltar lá.
Sem ela eu não vivo
Oceano, que castigo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Esperança

3/3

Depois de cinco meses de muita neve, as temperaturas começaram a aumentar, dando espaço para o Sol e as calçadas, agora descobertas. Moscou é um dos lugares mais bonitos do mundo, assim descreveriam o sorriso de Natália. Pés e mãos finas, bem cuidadas, pele branca, macia, ombros delicados, andava como uma bailarina encanta em um palco no solo da ópera. Os olhos lembravam o inverno russo, frio, hipnotizante e incrivelmente lindo. Tinha os cabelos escuros como o céu limpo daquela noite em que conheceu Nícolas e seu pai.

A lucidez chegava e ia embora de repente, mas estava tornando-se cada vez mais ausente, raros eram os momentos em que Igor conseguia situar-se, reconhecer a si e a seu filho. Então, cada momento de sobriedade mental, era uma festa, as vezes duravam minutos, outras vezes horas. Os olhos se enchiam de lágrimas, as lágrimas secavam e plantavam marcas em seu rosto, o tempo passava e castigava-o, assim como as tempestades castigavam a linda Moscou. Nícolas tentava não chorar, manter a calma, e tentar aproveitar o máximo de cada momento. Nunca a vida foi tão aproveitada, bonita e simples quanto naqueles segundos, minutos e horas. Mas a vida nunca tinha sido tão parecida com a morte, como quando a memória do seu pai desaparecia novamente. Olhos perplexos e gritos horripilantes. Uma dor na alma. Os últimos anos o fizeram amargo e solitário, mas tudo aquilo ficava pra trás quando estava com o seu pai, e pela primeira vez, uma sensação diferente em sua vida.

Depois que caiu em si, Natália aproximou-se e pediu desculpas pelo constrangimento, explicou-se, emocionou-se e percebeu que poderia estar incomodando novamente com tantas explicações. Estático, Nícolas sentiu uma ponta de alívio e não conseguiu segurar o sorriso. Ele não conseguia prestar atenção em nada do que a curiosa estava falando - e muito menos tinha se importado com a fotografia. Fascinado pela beleza impecável a sua frente, sentiu-se bem. O rosto dela queimava em um vermelho destacável, a começar pela cor da sua pele, e então, depois de alguns segundos, ele a segurou pelo braço enquanto ela tentava ir embora envergonhada.

A melancolia toma conta de nossas vidas quando menos esperamos. Deixamos a porta sempre aberta, coisas boas acontecem, coisas ruins também, vivemos o momento, somos o momento. Nossa identidade deveria ser não ter identidade, a nossa realidade é triste, o mundo é cruel, a humanidade é contraditória, mas e quem escreve a nossa história? Deixa a vida levar ou deixa o destino agir? Coisas boas e ruins acontecem quando menos esperamos, mas somos nós, os responsáveis por fazer delas o que somos, e levar adiante os nossos sonhos. Nícolas e Natália casaram-se, mas não foi porque o acaso os apresentou, foi porque ele não a deixou ir embora. Igor falecera um ano após o casamento dos dois, a neve castigou novamente as calçadas da Praça Vermelha no seu funeral militar. Ele agora é a lembrança, a mesma que nunca lhe encontrava, agora o abraçou de vez. Temos que deixar partir mas temos que saber deixar chegar. Não que Nícolas tenha ganho de um lado e perdido de outro, são coisas diferentes. O casamento lhe fez bem, as portas e janelas do casarão agora têm tons claros, o jardim está mais lindo que nunca, e as lembranças enchem todos os cômodos. A vida pode ser triste e melancólica as vezes, mas, assim como os olhos de Natália, é um grande encanto.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Identidade

2/3



Natália formou-se em enfermagem na Inglaterra, pra onde havia se mudado com os seus pais desde o surgimento da União Soviética. Depois de 25 anos e de perder os pais em um acidente, decidiu voltar para Moscou. Convidada pela Lomonosov, a universidade estadual da sua cidade natal, passou a equilibrar seu tempo entre aulas para lecionar e plantões. Ainda assim arrumava algum tempo para completar sua tese, que acabara de completar dez anos, e trabalhos beneficentes.

Mais um inverno castigava a Rússia. Natália acordou-se subitamente, não sentia os pés, nem conseguia respirar. Contorceu-se em torno de si mesma, segurando a colcha com força, os olhos arregalavam-se. Sentia o rosto empalidecer-se e as lágrimas cortarem o rosto. A visão foi escurecendo cada vez mais, quando de repente, um clarão. O mesmo pesadelo por vários anos, várias formas, diferentes gestos, mas a mesma aflição e o mesmo triste fim. Um banho quente, um café, um cigarro, tranquilizantes. "Que rotina dos infernos" - reclamava sempre. Queria fazer tantas coisas na vida, que acabava não fazendo nada, não mudava nada. Colocou todas as roupas que precisava, a temperatura tinha subido um pouco, tornando possível uma caminhada madrugada a dentro pela Praça Vermelha.

Nícolas acordou com um grito ensurdecedor. Levantou mais depressa que as próprias pernas, sentiu o chão chegar mais próximo e encostar em sua testa. Mal sentiu o tombo e correu deslizando pelo piso do casarão. Os pés descalços, desavisados, gelavam, mas nada disso foi percebido ou o impediram de chegar até o quarto de seu pai. Igor era um ex-general da época da URSS, abandonado pela esposa, uma idealista que enlouqueceu na era dos czares, abandonando-o com o pequeno Nícolas de apenas um ano. Não teve uma vida fácil, mas sempre viu prazer em quase tudo que fazia, mas nunca foi muito de dar risadas ou uma pessoa fácil de lidar. Poeta e compositor, teve grandes paixões em sua vida, mas nunca chegara a casar-se novamente. Após tantos anos e tantas lembranças, recebeu da vida o retorno. Será que o destino é isso mesmo que dizem? Sabe, toda aquela magia em um reencontro. Luzes, cores, sons, amores. A vida para Igor e o seu filho nunca foi fácil, mas porque agora seria? Nícolas arrumou-se, pegou agasalho, sobre-tudo, cachecol e a cadeira-de-rodas do seu pai, e o levou para dar uma volta em seu lugar favorito de toda a grande Moscou.

Ninguém pode prever ou imaginar o que vai acontecer. Somos os maestros de nossas vidas, mas somos reféns do tempo, acúmulos de sentimentos. Nós somos o que já fomos no passado, o que somos hoje e o que podemos ser amanhã, um grande apanhado de momentos. Nós somos cada momento a todo instante. Igor tentava se lembrar da época dos desfiles militares que aconteciam na praça, confuso pediu que seu filho contasse alguma história. Por alguns minutos, raros minutos, pôde-se ver o brilho em seus olhos, a magia estava de volta. Para um cego, enxergar é um milagre. "Malditos os tantos que reclamam de suas vidas", - pensava Nícolas enquanto via seu pai revivendo seus momentos favoritos. Natália adorava o céu, mas ficou encantada com a cena que via. Um senhor de idade que levantava-se lentamente da cadeira de rodas, chorando e sorrindo enquanto seu filho gritava e cantava, e os dois se abraçaram, como se não se vissem há anos. "Uma foto para a eternidade". E os olhos se encontraram. Esqueça tudo o que você já viveu, esqueça tudo que você já soube sobre o amor. A vida pareceu soprar novamente.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Melancolia

1/3

Cair em esquecimento, sofrer indiferença, ver nos olhos de outro alguém que não existe mais espaço naquela alma para você. Triste fim, choro sem tamanho. O mundo se tornou um lugar minúsculo, ele criou um universo paralelo e nesse já não havia mais espaço para as decepções. O muro das lamentações se tornou o seu destino, fadado a desacreditar. Não existe nada pior que a falta de esperança.

Nícolas era um grande advogado renomado na cidade e passou a vida inteira tentando encontrar tempo para sua vida social e desculpas para os dias em que não comparecera a festas familiares, reencontros com velhos amigos e os concertos de suas filhas. Em troca de todo esse tempo de renúncia, uma enorme recompensa financeira apreciada em bens duráveis por muitas gerações. Viajara o mundo inteiro até descobrir que o melhor lugar para viver era em sua amada Moscou. Nícolas sempre fora amante da estrada, mas depois que sua namorada na adolescência engravidou, resolveu estabelecer-se. Junto com Anna tiveram duas filhas, as quais não viu crescer. Desde que se separaram, formou-se em direito e a cada ano trabalhava mais e tinha menos tempo.

Mudou-se para um casarão velho perto da praça vermelha, o lugar favorito do seu pai, o qual passou a morar junto, na antiga Moscou. Reinventou o jardim, arrumou a lareira, trocou algumas janelas tornando o lugar mais arejado e agradável. O quarto de seu pai era grande, havia uma cabeceira antiga, um closet magnífico e uma banheira com detalhes dourados. Só faltava contratar uma enfermeira dedicada, cuidadosa e paciente. Nícolas e seu pai sempre se deram bem, se pareciam em tudo, conversavam fumando charutos e experimentando a coleção de bebidas que colecionavam como hobbie. Tudo isso parece ter se perdido no tempo desde que foi diagnosticado com Mal de Alzheimer.

Geadas caíram, dias vieram, noites seguiram e tudo que passou não voltou, nem nunca voltará. O médico pediu para ter forças, disse que seria difícil e contou mais detalhes sobre a doença degenerativa. O tempo não facilitou em nada, mas ele ainda tinha que trabalhar, e sentia uma soco no estômago toda vez que chegava em casa. Seu pai estava sempre tentando se reconhecer no espelho, e sempre que era abordado, se assustava com o próprio filho, que havia se transformado em um estranho, reduzido a ninguém. Existiam alguns momentos de lucidez, mas os momentos seguiam com mais tristeza ainda. A doce e velha Moscou perdeu todo o encanto, e o mundo caiu sobre o casarão. As grandes e arejadas janelas viviam fechadas, gritarias se ouviam por toda a vizinhança, todas as flores do jardim morreram juntamente com as lembranças do passado. Caído em esquecimento, depressivo e melancólico, Nícolas não pôde fazer nada, a não ser, depois de 40 longos anos, chorar como uma criança novamente, sozinho em seu quarto. Olhando para o céu estrelado russo, pediu ajuda a qualquer força do universo. Estava vivendo um inferno astral, mas estava prestes a presenciar uma grande reviravolta.

sábado, 11 de maio de 2013

Despindo, despedindo e pedindo

Me abraça mais uma vez e olha o mundo que a gente fez, o sorriso na cozinha, o amor no quarto e o som na viola - que hoje me fez chorar. Me fez lembrar daquela vez. Nossa história começou assim, tipo "era uma vez", conto de fadas, filme de romance, te dei meu sangue, minha alma, meus olhos e minha prosa: você puxava a minha camisa e falava sobre rosas.

Uma ideia boa para a vida seria que você nunca mais saísse da minha. Reconheci em seu sorriso os meus segredos e não tive vergonha de meus erros, você lava a minha alma e desperta os meus desejos. Um beijo, seu beijo, você agora beija a vida. Eu sou a plenitude. A vontade de viver corre em minhas veias e eu corro para seus braços, seus traços me gelam, suas pernas me traem quando te levam embora, mas a sua boca torna a dizer que volta e traz meu sorriso a tona, apaixonando o meu pobre coração que sonha o sonho impossível de adiantar as horas dando, no mundo, um milhão de voltas.

Olhe nos meus olhos. Você consegue ver que a melancolia não mora mais aqui? Eu não choro mais, não por cansaço, mas por estar escarço o sentimento abafado, momento depressivo superado. Desde que você apareceu, amar se tornou novamente agradável, me tornou mais responsável, me fez ver o mundo de cabeça pra baixo. Vem cá, me dá mais outro abraço.

Como é difícil se despedir! Você me conta sobre sua rotina, e eu só penso em te despir. Eu vou cantar baixinho, mas se ajudar, liga o raidinho e ouve o som que eu tocava na viola, e coloca de vez dentro dessa cachola, eu te amo, então volta!

domingo, 5 de maio de 2013

O mais feliz do mundo inteiro

Vejo em você o que ninguém vê.
Não porque você não seja,
mas porque, veja bem,
se olhe de verdade
e me diga com honestidade.
Veja bem...
Veja quanta beleza!
Se quiser seja
sarcástica
e diga que não vê nada.
Mas se for sincera,
verás que nem a flor mais bela,
nem o dia mais lindo,
fará no mundo sentido
se você não aparecesse pra mim.
Odeia a futilidade
e ama poesia.
Então você me diga,
que defeito você colocaria
na mulher que simplifica
as coisas mais bonitas
que já vi na minha vida?
Se você vir metade do que eu vejo,
fique então sabendo:
Corra depressa e logo
antes que esteja se arrependendo
como eu, que vou vivendo,
mas embora também sofrendo
por ter me privado
de ser o mais feliz do mundo inteiro.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quando queremos acertar

O que seríamos se não fossemos nós?
E o que fizemos estando a sós?
Eu não teria desatado o nó,
nem acharia que estou melhor.
O que faria se não fosse você
a razão, pela qual perdi a razão
e achar-se-ia que saber, seria solução?
Era melhor guardar o que foi dito,
apagar o que foi escrito.
Não ter te conhecido!
Não ter recebido a vida que você me deu
e depois ter morrido.
Sou a estrela que faleceu
quando você em mim sentiu
a paixão, enfim, falir.

Eu faria tudo de novo.
Te procuraria em todos os ocos
que a minha alma percorreu.
Traria por mil vidas
você junto a mim,
mas dessa vez sem erros;
sem precipitar ou cometê-los,
sem acusar ou sentir medo,
sem mentiras, nem segredos.
Faria tudo de novo.
Mas faria, de vez,
de você a minha vida
ou morreria mil vezes
enfim.

domingo, 28 de abril de 2013

Costas nuas

Ela estava no fim do balcão bebendo doses de whisky como se tentasse matar algum pensamento que insistia em reaparecer. Vestido vermelho no corpo, azul nos olhos e cigarro entre os dedos, ignorando com desdém todas as investidas que passaram a motivar apostas entre os homens do bar. Ninguém conseguira arrancar um sorriso, daqueles que valeriam vidas, inspirariam pós-modernistas, católicos e ateus. Eu vi aqueles profundos olhos me cortarem a existência, duvidei que pudesse respirar enquanto ela tragava mais um cigarro e destroçava as minhas certezas.

Os lábios encostavam o copo delicadamente, as mãos sempre passeavam pelos cabelos a fim de tirá-los dos olhos. A maquiagem estava um pouco borrada e o semblante era de quem já estava cansada de chorar, de quem quisesse gritar, mas estava apenas ali sozinha, porque saberia que ninguém entenderia o que tinha para dizer. As vezes bocejava para parecer entediada com alguma coisa, mas na verdade ela estava querendo dizer algo, mas em sua garganta havia um nó e em sua vida uma dor, e nenhum dos dois alguém conseguiria resolver. Eu estava tão desamparado quanto suas costas naquele vestido. Quis falar sobre toda a vida que vi em sua alma, mas haviam vários olhos atentos a cercando. Foi quando ela se movimentou e trouxe suas pernas ate mim. Fiquei atônito, surpreso e desconcertado. "Me leve para outro lugar."

O que você diria se soubesse que poderia viver algo que ninguém entenderia? Se você visse aqueles olhos saberia o que estou dizendo. Era como um convite à um abismo, onde eu saberia que no final eu me jogaria de lá de cima por preferir a ideia de morrer do que desacostumar-me àquela presença. Eu não entendo como começou, mas eu já podia prever como iria acabar. Aquela forma de olhar com desatenção para o vazio e andar deslizando depois de tantos drinques, denunciavam a forma como entraria e sairia da minha vida. Meses depois eu continuei frequentando aquele bar, na esperança de topar com aqueles olhos tristes, ocupei seu copo e tomei, por empréstimo, vários copos, conheci outros corpos, mas ninguém era tão triste quanto ela, nem tão espetacular.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Talento


Repousas em profundo sonho
pendurada em meu peito.
Caiu sorrindo no sono:
"Deus conserve nosso leito."

O que vocês estão vendo,
imaginando ou vivendo,
se for metade da vida
que levo com a minha querida,
fiquem do sonho sabendo.

O amor não é alento
nem tão pouco sofrimento
estique para os céus as mãos
em sinal de agradecimento

você enfim está vivendo
embora de amor morrendo
eu mostro o meu talento
escrevendo de coração.

Em comemoração aos mais de dez mil acessos que o blog conseguiu e todos os amores que ele celebrou.

domingo, 21 de abril de 2013

Janelas

Sei que há no mundo bilhões de pessoas, no céu trilhões de estrelas e muitas ondas solitárias por todos os oceanos, mas não considero egoísmo pensar em uma só pessoa. O que tem demais em pensar com o coração? Somos racionais, eu sei, mas não há pecado nenhum em ser tomado pelas emoções. O meu coração anda sozinho às vezes, e sei que ele precisa aprender a andar assim, mas o que posso fazer se enquanto ele aprende a caminhar, tropeça sempre em você?

Os olhos são a janela da alma. Gosto de pensar que a minha casa foi construída em uma montanha e tem janelas brancas enormes de madeira que abrigam uma vista espetacular de enormes campos e florestas, onde passeia a minha alma. Meus pensamentos vagam pela estratosfera e desaba com a chuva tornando rios, enchentes e tsunamis.

Os meus olhos nunca se fecham, e você sempre passa pela minha janela. "Olhe bem, a porta está aberta, mas porque você não entra?"- gritam todas as células do meu corpo, não só a minha alma suplica, como todo o meu ser te devora, te implora: "vem e fica". Fecharei as janelas quando você entrar pela porta com um sorriso no rosto e um vinho nas mãos dizendo que será minha. Não precisa prometer construir uma vila inteira ou mover todas aquelas montanhas, pode ser só por hoje, e só por hoje eu estarei eternamente feliz, extremamente contente, imensamente alegre. Só peço que quando for partir, deixe as janelas abertas.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Perigoso mantra dentro de você

Encarcerado, acorrentado, esquecido e isolado. Batendo forte e endiabrado, batendo forte a toda hora, bate, espanca e não assopra. Machuca por dentro. O que virá agora?
"Segura a onda! "Deixa seguir", "Esquece", "Não esquenta".
Mas não é isso, posso sentir.
A onda bate
bato de volta
ninguém se sai
olhe sua volta
a harmonia então
dependerá talvez
do sim ou não
insensatez
aí se solta, alaga, emerge, traz de volta a peste,
volta o tempo, voltam as horas
tortos olhos a sua volta
ninguém se fere tanto
quanto você mesmo.

domingo, 31 de março de 2013

Sinestesia.

Uma das avenidas mais bonitas da cidade, o ponto mais cobiçado por restaurantes e bares, foi o lugar que Helen conseguiu para abrir seu primeiro bistrô. Ela tinha acabado de voltar de Milão, onde estudava graças a uma bolsa de estudos. Seus pais ligavam todos os dias, e agora estavam sorrindo para a primeira foto na fachada do novo restaurante da família.

Nas capas dos jornais estava estampado o nome Gabrielle e ótimas críticas ao bistrô especialista em comida italiana. Helen deu o nome da sua irmã mais nova ao restaurante, era de se imaginar, elas nunca haviam se desgrudado, até o câncer levar a caçula da família. Na foto familiar estava Helen sorrindo um choro, seu pai com o peito inflamado de orgulho, sua mãe chorando um sorriso e na cabeça de todos estava Gabrielle sorrindo, nunca houve uma lembrança triste dela.

Na entrada estava Lorenzo, marido e financiador da proprietária sorridente, tocando violão, cantando músicas da sua boa e velha Toscana. Luzes altas e notas amarelas. O ambiente agradava a todos e a todos encantava. O prato principal se chamava "Sorriso" e tinha muito de Helen nele, e um cheiro com cor de música impressionante. Não fazia sentido, mas todos sentiam. Tinha muito dela em todo o lugar e logo sua fama cresceu, seu casamento se fortaleceu, seus pais se orgulharam, o restaurante deu certo, sua vida era um sonho. Gabrielle estava mesmo sorrindo.

Entretanto

Entre, é tanto amor, tantas vidas já passaram e tantas saíram. Entretanto, nenhuma traz tanta luz quanto você traz. Quero que você entre, e o resto tanto faz. Quero te cuidar doente, te fazer contente, rir da dor de dente e tudo mais. Tanto querer que me dá vontade de saber o que você ia me dizer até te interromper, dizendo que o destino escolheria; juntos ou nunca mais, agora que te vi na fila da loteria, adivinhei! Não apostei mas já ganhei e estou levando o prêmio pra casa. Entre e tanto. Entre nós dois não há mais nada, se o universo te jogou de volta, olhe bem a sua volta, se solta, me olha, me beija, entretanto seja mais que uma noite, seja minha enquanto puder. Que essa vida nunca tenha fim!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Acesso. Parte 2.

O sol estava lindo naquele dia. As cortinas não estavam abertas, mas eu podia sentir toda aquela energia e calor. Sempre tentei enxergar melhor a minha vida com os olhos fechados, tentando aumentar a minha percepção em relação ao meu redor. A minha mão direita ainda doía um pouco, respirei fundo, e comecei a exercitá-la devagar. Abre, fecha, aperta, solta, abre. Onde estava meus pensamentos? Pra onde foi a minha memória? Eu só conseguia lembrar da sensação, como se estivesse caindo de um precipício numa espécie de pesadelo, o qual não conseguia acordar.

A conversa com minha psicóloga me deixou - mais - nervoso. "Quando você e sua namorada se conheceram?", "vocês brigavam muito", "vocês se davam bem?". Ainda bem que Mirella havia ido pra casa descansar um pouco, ela sempre chora quando me vê nervoso ou triste. Sempre muito compreensiva e delicada, que sorte a minha! "Gabriel?" A doutora me jogou de volta na conversa. Você precisa ser forte. Até então todo aquele clima no quarto do hospital parecia se referir ao meu estado, aos acontecidos daquela noite. De certo modo, parte de tudo, tinha essa explicação. Mas eu não havia enxergado o que tinha a mais.

"Sua namorada faleceu, Gabriel. Eu sinto muito."

Quando sinto forte dores de cabeça, as vezes penso que se eu fizesse um corte em alguma parte do corpo, faria com que eu esquecesse aquela terrível enxaqueca. Mas a minha cabeça resolveu explodir e não haveria corte profundo o suficiente pra me fazer esquecer disso. Ouvi todas as palavras direcionadas a mim com bastante atenção. Minha cabeça estava em outro universo, pedaços do meu corpo foram espalhados por todo o universo, mas minha atenção ainda estavam naquelas palavras. Então minha memória resolveu voltar. Um acidente de carro dois dias antes, em frente a casa de festas daquela noite. Perdi o controle do carro e bati em um poste no final da rua que acabou derrubando as fiações, geradores e a energia em toda a rua. Desde aquele dia estive inconsolável, sem alma, sem vida.

"Foi um acesso de raiva depois de muitas cervejas. Você foi até a boate, arranjou uma briga que acabou se generalizando. Testemunhas disseram que você saiu correndo da boate e depois te acharam na rua, desmaiado e sozinho."

segunda-feira, 25 de março de 2013

Acesso. Parte 1.

Estão todos olhando pra mim. Perplexos, atentos, apreensivos. Não conseguia me mover, nem um passo, nem um piscar de olhos. O vento cortou o silêncio, que rompeu-se com a nova confusão. Percebi que a minha camiseta estava encharcada de sangue quando braços me envolveram e me arrastaram por metros. O que estava acontecendo ali? A minha cabeça doeu primeiro, tentei lembrar do que estava acontecendo mas não conseguia sequer um clarão de lucidez. Depois a minha mão direita, o formigamento foi ficando cada vez mais forte. O poste queimado da esquina havia sido consertado há uns dois dias atrás. Conseguia me lembrar do carro de reparos na rua, conseguia lembrar do meu aniversário há três meses atrás, mas os últimos cinco minutos, nada!

"Gabriel? Gabriel? Você está me ouvindo? Gabriel?" Os postes, a rua, a cidade inteira, poderia estar tudo apagado e eu não perceberia naquele momento. Aqueles grandes olhos cor de mel que me acompanhavam, me entorpeciam, me iluminavam. Quanta luz, quanta paz. Eu não sabia onde estava, mas sabia que enquanto aqueles olhos me vigiassem, eu estaria bem. Não reconheci a rua em que eu e Mirella tínhamos nos conhecido até reparar que estávamos debaixo do mesmo poste quando nos beijamos pela primeira vez. Lua linda, noite breve, não esqueço os versos, não esqueço os lírios daquela noite. Os risos dela me fascinavam. Mas tudo isso havia ficado para trás.

"Eu estou bem, Mirella. O que aconteceu?" Tentei escolher as palavras certas sem sucesso. Os olhos que me acariciavam a alma, agora me reprovavam. Senti uma pontada no peito, uma dor sem fim, mas sem explicação ainda. Não consegui responder mais nada, então acabei ouvindo muitas coisas sem sentido. Não consegui assimilar quase nada. A voz dela foi ficando mais baixa, e cada vez mais baixinha, estava me esforçando muito para tentar entender. E cada vez mais fraca, até que não ouvi mais nada. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o nosso poste.

Acordei no outro dia na cama de um hospital. Minha namorada estava dormindo no sofá do quarto agarrada a um livro. Uma enfermeira tinha acabado de entrar no quarto e, ao reparar que eu estava acordado, me sorriu discretamente. Mais tarde meus pais chegaram e conversamos por toda a manhã. Mirella havia acordado e estava encantadora como sempre. Seu sorriso estava intacto, apesar da noite de sono perdida. O médico chegou no fim da tarde com meus exames e uma cara bastante preocupada. Na manhã seguinte, recebi a visita de uma psicóloga. Conversamos sobre a minha semana na faculdade, sobre o que eu fazia no trabalho, sobre minhas irmãs, meu namoro, amigos e sobre aquela noite. Eu não conseguia lembrar o que tinha acontecido. Então ela me contou.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Vida

Prefiro estar vivo, sentir a pulsação em minha vida, o sangue correr em vias, de fato, estar vivo é muito mais que se sentir vivo. Morro várias vezes por ano, pra nascer em milhares de noites, pra viver em milhares amores. O amor sim é vida em si, como se sentir mais vivo do que quando estamos amando? Não é coisa de filme, é coisa de pele, de boca, de perna, sem roupa, com roupa, com flores, com declaração, com amor, com canção. Digo, melhor viver uma paixão, perder a razão, estar sem chão, sem correspondência, do que sentir vazio, não acreditar que pode se apaixonar, doar parte de tudo e não se importar com nada.

Estar vivo é sentir o calor da emoção, é viver o momento, é estar no lugar certo, no bar certo, na faculdade, no trabalho. Dizer bom dia e esperar um sorriso, dar uma cantada sem se sentir ridículo. "Vai que cola", "pode dar certo", "por que não?". Viva os amores que vivemos, e viva os amores que ainda virão.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Orquídeas vermelhas


Estou aqui pra ouvir o que você tem a dizer, das mil coisas, e das mil maneiras que você tem pra me falar. Fale sobre o dia chato, sobre o idiota no trânsito, sobre o médico que demorou. Estou aqui sempre pra ouvir sobre sua unha quebrada, sobre as aulas que você lecionou na faculdade. Juro que gosto de ouvir sobre os livros que você adorou ler. Estou com os ouvidos sempre a postos. Te dar atenção e ver você gesticular com um sorriso ou uma cara emburrada, me faz ganhar o dia, me faz ficar ali parado, olhando seus lábios e suas feições. "Eu juro que nunca vou te deixar."

Quando erro, estou sempre disposto a pedir desculpas. Você as vezes não quer ouvir, diz que nunca me perdoará, mas seus olhos não te deixam desviar a atenção. Você diz que não, mas nunca larga a minha mão. Suco de laranja e sanduíches na mesa com uma carta, um recado na geladeira, uma simples mensagem de texto. Não são as coisas que você diz, mas simplesmente quem você é.

Tive um sonho ruim, mas nossa briga foi muito pior. Te liguei pra dizer que não queria mais brigar, liguei pra te dizer que se fossemos nos desentender mais vezes, que logo deveríamos nos casar. Então eu fiz o jantar, fato raro, levando em conta que eu não sei cozinhar. Eu fiz um poema, mais raro ainda, nem música costumo escutar. Deixei tudo pronto. Tentei te ligar, mas você estava no meio de uma aula, a última do dia, a que ainda te impedia de voltar. "Ainda tenho meia hora, o que falta fazer?" Já sei, saí, sabendo ser somente sincero um pedido de desculpas, se as flores viessem juntas. Mas você liberou seus alunos meia hora mais cedo, pegou o carro e dirigiu depressa, como se estivesse com medo de chegar em casa e eu ainda estar me lamentando por ter te feito chorar. "Eu sei, foi a TPM, isso tudo vai passar."

A banca de flores estava fechando. O sol por trás dos prédios já perdia a cor e as suas flores favoritas eu sabia de cór. Orquídeas vermelhas. Só me fez lembrar o quanto, tudo em você, me fazia te amar sempre mais. Como um ciclo. Como um respiro aliviado depois de um caldo, uma onda mal surfada. Mas de todos os tombos que tomei, das milhares de vacas que levei, nenhum doeu tanto quanto o que havia acabado de levar. Caí de um precipício por mil anos. Senti a dor de dois milhões de facas perfurarem a minha lata vazia. Fui esmagado por cem elefantes ao ver o seu carro capotado há duas quadras da minha casa. Seu corpo costumava estar entre meus lençóis e agora estava preso entre as ferragens. Meu coração parou de bater. Tantas coisas por dizer, tanto amor pra amar.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sorria, você está sendo.

Engraçado como o seu sorriso me faz falta. De todos os que vi por toda a vida, todos os dias, ou uma vez na vida, o seu é o que mais me marcou. Forte e sensível, desconcertante e bonito, inconsequente e tímido. Dente por dente, lábio a lábio, você o esculpiu em minha alma. Sorrindo tão linda, tão jovem, tão minha. Uma estrela caiu na terra quando você sorriu pra mim. Aprendi a lidar com eles; sim, vários deles, a todo momento, a todo instante, um novo aparecia, diferente dos outros. Então eu tive medo de não merecê-los, de não achá-los novamente, de não ser o motivo de nenhum deles. Eu vi em seus olhos sua alma, mas seu sorriso foi quem devorou a minha. Estou perdido sem saber como agir, lidar ou falar. Sorri de mim.

Sorri comigo.
Sorri de piadas.
Sorri com os livros.
Pergunta o final do filme,
quando começamos a assisti-lo.
Sorri de tudo,
até do perigo.

O meu mundo e você

Difícil citar
o que me agrada mais,
se é o sol no meu rosto
ou as curvas que seu sorriso faz,
as estrelas a noite,
ou seu beijo de dia,
café na cama
com amor, mordomia.
Sol cheio de força
enche o quarto, alegria.
O que eu faria
se não existisse no mundo
felicidade sem fim?
Te reinventaria,
conquistaria em segundos
seus olhos pra mim.

Fácil perceber
o que me deixa mais triste
as horas que param
quando você insiste;
em demorar pra voltar,
pra consertar o meu mundo
pra ser feliz novamente
e gritar com orgulho:
que, de todas as flores,
a mais bela é minha.
Só minha!
Sozinha você
mudou o meu mundo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Aprendendo a amar.

Ensanguentei as minhas mãos, inundei os meus olhos e esvaziei o coração. Abri um corte na garganta para conseguir respirar enfim. Bati na fibra da percussão, como no candomblé, porque não era digno de falar. Me livrei dos meus pecados porque aprendi a rezar. Perdi você por não saber dizer que te amo. Se todos os segundos voltassem, diria em muitos deles o que não soube dizer até aqui. Então eu fiz poema. Um não, cem mil poemas. Fiz canções. Escrevi livros. Pintei quadros. O corte na garganta deu espaço para as palavras escorrerem. O meu violão cansou de meus dedos, que calejados, ensurdeceram a minha alma e atormentaram o meu ser, insistindo em todas as canções que fiz pra você. Se do outro lado do mundo, você conseguir ouvir, então saiba que é esse o tamanho do meu amor, e é essa a falta que você me faz. Perdi o brilho nos olhos quando te vi ir embora.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

êta vida de cão

Acordei com o maior solzão na cara. Era um pouco mais que 10 da manhã, quase ninguém havia acordado ainda, mas já estava rolando RHCP na som que fica na sala. Levantei, me espreguicei, tomei um pouco de água. Procurei em minhas lembranças o que teria de bom para fazer pelo dia. Ainda meio devagar, fui rodar por todos os cômodos. Arrastei algumas meias pela casa, mordi algumas sandálias. Entrei no "quarto-grande" e com um pulo só subi na cama. "Esse cheiro é tão bom". Distribui alguns carinhos, recebi vários sorrisos ainda sonolentos e ganhei mais carinho do que dei. Pulei da cama e fui direto pra cozinha. Recebi um olhar bastante atencioso. "Hmmmmm, cheiro de carne assada... amo carne assada". Minha tigela de ração estava no canto, dei umas mastigadas meio sem vontade até ganhar dois pedaços do almoço da galera.

A tarde eu tirei um pequeno cochilo. O calor era tanto que até pensei em tomar banho! - mas a loucura foi momentânea. Com os neurônios funcionando normalmente, peguei a coleira com a boca e fui até a porta da frente. Dois latidos e pronto. Já estou passeando. A melhor parte do dia! Ar fresco, amigos da vizinhança... Não se enganem com a minha rua, ela é bastante tranquila mas aqui a paquera rola solta. Olhares que se desviam, focinhos que se tocam. Acho que vivo em um paraíso.

Quando o sol cai, a fome aperta de novo. Mais um pouco de exibição na cozinha: barriga cheia novamente. A sala é o meu lugar predileto, a noite inteira rola filme, música e até novela. As vezes até me vejo na televisão nos comerciais, que engraçado não é? Deve ser coisa da minha cabeça. Que vida boa.

NOEL

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Astronauta

Flutuando sem órbita
navegando sem tormentos
não me preocupo com hora,
só me interessa o vento
que sopra sem pressa,
que conta nos dedos,
que pinta aquarela
e que voa sem medo.

Quantas luas existem
nesse mundo só meu?
Vinte e tantas existem
mas uma não morreu.
Teus olhos me cercam,
me invadem, arremessam,
me cortam, me acertam,
me erram e me costuram a alma.

Tua boca me olha,
seus olhos se fecham,
seu sorriso se apressa,
chega na hora certa.

Aroma de incenso
jogo de cartas
saídas de emergência dispenso
nomearei as suas sardas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Madrid, ESPANHA, 1982.

"As melhores lembranças que tenho da minha infância foram na biblioteca com meus pais. Minha mãe foi uma grande escritora, e uma grande contadora de histórias. Meu pai sempre foi muito presente, apesar de conciliar os concertos com as aulas de piano que dava na Universidade Cumplitense de Madrid. Tive uma infância inspirada nos romances franceses que li, cresci ouvindo jazz e me apresentando por todos grandes teatros com a companhia de balé.

Inês foi o nome da minha tataravó, dona de mãos pequenas que cozinhavam a melhor paella de toda a Espanha. Todos dizem que tenho os mesmos olhos verdes que ela, talvez por isso meus pais tenham decidido homenageá-la em minha certidão de nascimento. Mas não herdei apenas o seu nome, ganhei muito mais que belos olhos dela. Publiquei o meu primeiro livro no primeiro ano da faculdade. Minha família é dona de uma editora e a publicação não foi um problema, o sucesso demorou, mas chegou. Me formei em jornalismo e no fim do curso já tinha um caderno de poesias no EL PAÍS, jornal espanhol de grande circulação. Me apresentava em grandes sarais que rolavam nos fins de tarde em praças e bares locais. Poesia corre em minhas veias, minha tataravó foi quem me deu.

Viajei de ferias para paris, pra tentar me desocupar um pouco. A fama dos meus versos correu por toda a Espanha, e eu estava cada vez mais atarefada, precisava urgentemente de uma folga. Mesmo assim não consegui ficar longe dos livros, e felizmente, foi em outro autor que reconheci meu amor. Entrei em um pequeno café e fui atendido por uma simpática senhora, ela me mostrou o pequeno sebo que ela tinha, com coleções invejáveis. O que mais me chamou atenção foi um manuscrito com capa de couro. A senhorazinha me abriu um sorriso orgulhoso e resolveu contar a história daquele livro. Eu não me incomodei, muito pelo contrário, nem percebi que já haviam passado duas horas desde que entrei no café.

A tarde caiu, a noite chegou e a conversa não cansava nunca. A dona do café me contou sobre um jovem escritor francês com potencial altíssimo, que escrevia ótimas histórias mas não tinha dinheiro para publicar seus livros, apaixonado por literatura francesa e apaixonante, e que por coincidência, era seu neto! "Um cavalheiro perdido no tempo, um dos últimos da velha paris encantadora." Acabei sorrindo com um enorme tom de interesse desesperado ao ouvir o seu comentário. Até que a risada virou angústia. Damien interrompeu-nos com uma eufórica saudação a sua vó, apresentou-se a mim e pediu desculpas, porque sua maior - e única - fã estava me enchendo a cabeça.

Sentamo-nos novamente pra continuar a conversa, mas não era mais a mesma coisa. As portas do café já estavam fechadas, duas garrafas de vinho francês figuravam na mesa, um prato de queijos e um clima até então inabitado por mim. O sorriso aconchegante da senhora havia transformado-se em um riso maquiavélico, enquanto seu neto ia comprovando todas as características citadas antes. Não era possível alguém ser como ele, mas não era mais um livro, era real e estava acontecendo comigo. Fiz versos sobre todas as histórias de amor que ouvi falar, que vivi ou que sonhava viver, e nada era parecido com a atmosfera daquela Paris que eu acabei conhecendo. O que eu poderia ter feito? Histórias de amor vendem muito bem, mas será que existe mesmo um final feliz? Damien e eu eramos estranhamente parecidos, e eu tive de verdade a sensação de que estive esperando por ele por toda a minha vida.


Inês Bueno."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Cais

Mas o que está acontecendo? Ontem bagunçamos toda a casa e eu arrumei, sujamos a cozinha inteira e eu limpei, nos deitamos no chão e sonhamos na cama e agora você sai de fininho deixando o sol entrar e levando consigo minha luz. Qual foi? Você entendeu errado. Eu disse que te queria, que te desejava, que me encantei desde a primeira vez que te vi no balcão do bar. Eu falei que seus olhos combinavam com as minhas cortinas, te levei pra minha casa, pedi pra que tirasse os sapatos e abri um vinho. E eu quis que tudo isso fosse dia-a-dia, mas você entendeu que era amor pra uma noite só. Mas tudo bem, eu tô feliz assim. Dias assim entram pra história. Você não quis ancorar, mas quem sabe um dia atraque novamente em meu cais.