sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

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dadas as circunstâncias
longe eu me encontro
e a perigo

devido as distâncias
quase morro
e te digo

sou metade
sou uma parte
daquilo que nos chamam
do inteiro
do completo

sou tudo
sou nada
sou tudo o que você quiser
sou nada sem você

então insisto
volte correndo pra eu te ver
diz que pensou em mim
enquanto pensei em você

e ai me abraça
assim que chegar
diz que não tem graça
viver e não me amar

Folha de papel

você já parou para observar cada célula do seu corpo? observar como cada membro seu se movimenta; como cada parte sua quisesse ter autonomia mas estivessem todas ligadas ao todo. cada unidade faz parte do completo, do complexo. metabolismo, ação, reação. eu sou tudo o que vejo quando paro para me observar. sou até mais. a complexidade que nos cabe acaba nos afastando do nosso auto-conhecimento e a falta de tempo faz com que momentos como esse passem despercebidos.
esse sou eu. esse sou cada eu. mas sou mais que órgãos, sangue e fios de cabelo. sou também o que não posso ver. sou do interno para o externo em frações de segundo. sou puro sentimento. sou ódio e tristeza, sou amor e bondade, sou instabilidade à flor da pele. sou a letra, a palavra transcrita. vou das células à palavra impressa no papel.
esse sou eu, me entendendo e tentando ficar em paz. esse sou eu, me entendendo e vivendo. preciso conhecer o que se passa aqui dentro para entender o que acontece ao meu redor. então eu me amo para poder amar alguém. me compreendo e me tolero para poder ouvir outro alguém.
esse sou eu. sonho acordado com uma família, observando outros membros e células que vieram de mim, mas não me pertencem. sonho mas estou acordado. sou insônia.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fazer questão

eu faço questão de passar na sua cara tudo o que já fiz por você e por todo o resto das pessoas que nos cercam. cansei de contar os momentos em que me controlei, não por mim, mas por você. por respeito. por amor. eu fiz tudo o que fiz por amor e é assim que vc me tem. marginalizado e excluido dos seus devaneios. afastado dos seus sonhos, dos seus ideais de vida perfeita.

eu não quero ter que gritar tudo de novo para ter certeza de que você me ouviu. então repito baixo na minha cabeça tudo o que você falou em seus mínimos detalhes; expressões, tons e palavras. sou muito menos do que fui por você, e sou menos ainda quando você bate de frente pra mim. em razão do desespero, ou seja lá qual for a arma que você utiliza quando se vê acudida, você me ataca com palavras ásperas e pontiagudas que costumam abrir retalhos em meu peito. e lá estou eu, chorando no meu travesseiro tentando remendar os pequenos buracos.

eu não vou mais discutir. é o que prometo todas as vezes em que você vem reclamar de algo que eu não fiz. eu estou certo. agora não estou mais. se te olho, você não aceita a afronta. se não te olho, você reclama de desprezo. então chega a hora que eu desejo que você pare de falar. que você pare de me olhar com esses olhos de reprovação. com esses olhos fundos de negação. queria estar em seu abraço agora, mesmo sempre te ferindo, eu sou doido por você.

para e olha pra mim. deixa as minhas lágrimas caírem e rolarem pela gravidade que nos faz ajoelhar enquanto pedimos perdão e misericórdia. essa é a mesma gravidade que agora havia me derrubado no chão. estirado e cercado por lágrimas que não pararam de escorrer, eu sou apenas um pedaço da parte da minha baixo-estima e todos os defeitos que mais tarde irão ser varridos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ao mar o que é do mar

ele era mais um moleque que nasceu e cresceu na praia e foi criado no mar. naquela região eram vários. os mais antigos tiveram filhos, que tiveram filhos, que tiveram outros filhos. gerações e gerações de ratos de praia. a lei naquela cidade feita de areia e ondas era o respeito e o espírito do aloha. no mar, pegando onda, curtindo no luau a noite ou em qualquer lugar, eram todos bons de alma. a cidade era banhada pelo oceano e protegida pelos encantos que existiam. uns chamavam de natureza, outros chamavam de misticismo.

o moleque era simples e como todos, adorava quando o sol raiava flamejante e não dava vento nenhum. as ondas quebravam numa direita secular infinita e ele dropava em todas. mas naquele dia foi diferente. o mar tava agitado pós-arrebentação, já tinha acontecido outras vezes, até com frequência, mas ele não temia nada, respeitava o mar, mas não foi o necessário. se divertia tanto fazendo o que mais gostava que não percebeu o quanto a maré estava forte e estava o levando cada vez mais para dentro. o que chamavam de natureza era a força que regia todas as gotas de água do mar. de repente. subitamente. um susto. um puxão e o empuxo da água. a prancha foi parar longe e ele foi fundo. iemanjá segurou em sua cintura e tomou mais um nativo para si. era o preço que tinha que ser pago por tamanha perfeição em ricas medidas.

nunca adiantava lutar. quando tinha de acontecer, simplesmente acontecia. ela era uma mãe muito protetora, e entendia que aquilo era para o bem de todos. quase que um sacrifício. e não adianta sacrificar algo que não faria falta ou não valeria a pena. o mar sabe ser bonito, mas também sabe ser traiçoeiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

eu tentei dormir. juro. não foi por enrolação ou manha que fiquei bolando de um lado pro outro brincando com o sono. enquanto ele ia e vinha, eu ia perdendo a paciência e meu cérebro, ao invés de relaxar e descansar, não parava de pensar em várias e várias coisas.

fechei os olhos e tentei manipular meus pensamentos. me concentrei até tentar achar algo que sintonizasse com os meus sonhos. de repente lá estava eu. parado em frente àquela rua que não existia. no final da rua tinha uma casa que também não existia. era noite e chovia, tanto fora do meu quarto, quanto no meu pensamento. o balanço que havia em frente a casa estava parado e não havia ninguém nele, nem em algum outro cômodo da casa. o portão grande e pesado, que servia de entrada, estava aberto, passando por ele havia um jardim onde estavam várias caixas. foi aí que me dei conta da placa de vende-se que parecia ter sido colocada ali há um bom tempo.

caixas pequenas guardavam coisas pequenas. caixas grandes guardavam coisas grandes. mas o que me chamou atenção mesmo não foram nem as grandes nem as pequenas, mas sim as caixas de porte médio que estavam separadas. nessa hora meu espasmo de sono já era profundo e fui cada vez mais fundo no sonho. eu não precisei abrí-las para saber o que tinha dentro, fui eu mesmo quem as organizei. fui eu quem havia deixado o portão aberto e que tinha colocado aquela placa de vende-se. as caixas medianas estavam cheias de sentimentos e lembranças minhas daquele lugar, coisas que eu tinha visto e vivido ali. na casa não tinha recordações porque eu as guardei em caixas. na casa não tinha ninguém porque eu havia matado todos.

no fundo aquela rua existia e aquela casa era reflexo de algum lugar real que eu fiz questão de esquecer. vivi um bom tempo ali e aquilo estava no fundo das minhas lembranças. mas foi melhor esquecer. tive que voltar lá pra lembrar do que eu tinha tanto que esquecer e que, como um sinal de alerta, minha própria mente fez o papel de me chamar a atenção em relação ao que eu deveria descartar, pois o futuro é muito promissor na casa onde estou agora, e nas lembranças em que vivo o passado é o passado que naquela casa ficou. não vou me ancorar, vou deixar que o vento leve a embarcação nessa morada sem muros onde estou.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Articulado, suingado e bêbado

era noite. ele estava de um lado e ela exatamente do outro. ele estava usando sua camisa favorita e uma calça que até era arrumada, em comparação aos seus padrões de vestimenta. ela usava um vestido simples e estampado, não muito curto e nem muito longo, tinha a pele bronzeada e os cabelos encaracolados. ele conversava com seus amigos sobre futebol e música enquanto tornavam copos e copos de cerveja e ela conversava coisas como política e valores morais. eles já se conheciam, não sei de onde, de outras vidas ou de outros planos, ou se foi somente a cantada que ele estava usando quando eles se esbarraram na porta do bar. realmente, foi a impressão que ficou. eles se deram tão bem e conversaram por tanto tempo que parecia mesmo que eles já se conheciam. ele falava bem demais para o jeito que se vestia e pela barba que acrescentava-se àquele visual. ela falava devagar, pausadamente e com um ritmo impressionante, suas palavras pareciam trovas ou repentes, mas se vc voltasse a prestar atenção somente aos lábios dela, você se devolveria a realidade e perceberia que ali era só uma conversa. se deram muito bem, mas deixaram o destino resolver o futuro deles. ela saiu por um lado, ele ficou por ali mesmo, e a noite continuou sendo noite.