quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Precipitações dois

todos riram e ele ficou sem reação. enquanto a professora falava ele já contava os passos e refazia o caminho de volta para a saída. demorou uma semana para voltar pra escola. e foi o ano inteiro assim. nem uma palavra. nem um contato além do ocular.

última semana de aula e eles então tiveram a chance certa para se conhecer. ela se atrasara por causa que havia chuvido demais e o carro de sua mãe havia quebrado, e ele sempre estava atrasado. tiveram que esperar o toque do segundo horário. acabaram se vendo sentados na mesma mesa esperando o tempo passar. ela fazendo alguns exercicios de física e ele com fones no ouvido. sobre gravitação, questão conceitual, verdadeiro ou falso. ela não sabia a resposta. foi quando ele soprou alguma coisa e ela não entendeu.
- o que você disse?
- disse que é falso.
- e como você sabe? nem da pra ver a questão daí.

sem tirar os fones do ouvido, se ajeitou na cadeira, pegou um lápis do bolso e escreveu de forma que ficaria de cabeça pra baixo no caderno dela. enquanto ela virava e tentava ler, ele abria um sorriso. quando se deu conta, abriu um enorme sorriso envergonhada. gravitação nunca foi tão simples, nove números e o celular dele, ao invés da resolução, já estava anotado. se conheceram e um clima rolou desde a primeira vez. se falavam sempre na escola, e quando ele faltava se falavam por telefone. final de tarde, era o horário que ele chegava da praia e ia passear com o cachorro, e marcavam de andar juntos.

logo começou a faladeira. amigos e amigas dela estavam preocupados por não terem tanta certeza de ser boa a companhia dele para ela. "o pai dele é doido", "ele é um drogado, um vagabundo." mas ela não lhes deu ouvido. apesar de a primeira impressão ela ficara com um pé atrás, mas logo desencanou.

ele não apareceu na segunda na escola, mas era normal. ela começou a notar algo estranho quando viu que ele não atendia o celular. final de tarde na praça e, nem ele, nem o cachorro dele passearam por ali. e foi assim durante duas semanas. as manhãs dela estavam comprometidas. ela não conseguia dormir direito, madrugadas a dentro acordada, mal tinha tempo de aproveitar o nascer do dia com café que ela gostava tanto. ia fazer um ano que ele tinha se mudado de volta e onde será que ele estivera. foi quando seu consciente resolveu ceder as acusações. quando ele reapareceu, ela não quis nem saber. o acusou de ter brincado com ela e sumido, o chamou de irresponsável, de vagabundo e outras acusações fundamentadas em sua total instabilidade. agora ela era a menina insegura que nunca quis se tornar.

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