domingo, 22 de agosto de 2010

História de Joãozinho revoltado três (final)

o que antes era sacrifício em minha vida, hoje era prazer. antes de minha abençoada e sábia mãe chegar no meu quarto, eu já estava de pé, pronto para encarar mais um dia difícil na escola. Estela me trouxe uma alegria ímpar. eu, ela e meus dois inseparáveis amigos, formamos uma bela amizade. era como se ela fosse um irmão. mas não para mim. desde o episódio em que a conheci acidentalmente (literalmente), eu sabia que o que sentia por ela era diferente da atração que eu sentia pela professora de português, era diferente do que eu sentia pela menina que morava na rua atrás da minha e era diferente de qualquer outra coisa.
os dias letivos passaram voando. já havia chegado as férias e isso me dava um medo, e se eu não a visse todos os dias como eu a vi no colégio?
primeiro dia de férias e lá estava eu na minha espetacular soneca pós sete horas da manhã. botei o despertador para tocar na hora da aula, acordei puto, mas voltei a dormir mais alegre do que na noite anterior, sabia que dali eu não sairia por nada, ou quase nada.
algumas risadas, janela aberta, estava claro, muito claro e um sorriso em particular. Estela e minha mãe estavam sentadas a beira da minha cama olhando para mim e rindo enquanto minha mãe contava da vez que eu cheguei em casa pálido correndo por causa que um poodle miserável, que tinha assustadores 60 centímetros de altura, estava correndo atrás de mim.
- Estela? o que você está fazendo aqui? - tentei, frustradamente, disfarçar um tom de entusiasmo.
- Vim te chamar para ir a praia, joãozinho. Você precisa pegar um bronze urgente. - ela e minha mãe riram novamente - cuidado para não encontrar outro cachorrozinho assustador. - e riram mais um pouco.
eu fiquei esperançoso. até demais. imaginei nós dois na praia, conversando sob o calor e o verão, à luz do pôr-do-sol. mas, pura ilusão. quando me dei conta, estávamos eu, o Pedro e o Romário conversando na areia enquanto Estela comprava uma água de côco. mesmo assim foi um dia muito produtivo. o Romarinho tomou uma queda do caralho enquanto corria para pegar a bola, foi meio esquisito e nem Galvão Bueno saberia narrar esse lance. o Pedrinho e eu conversamos muito sobre bandas que gostamos e a Estela, como sempre, implicando com todos de uma maneira sempre muito engraçada.
- Vamos dar um mergulho? - pedrinho já estava em pé e sem camisa.
prontamente, a grande cabeça do Romário levantou-se e foi em direção ao mar também.
- Seu rosto é até bonito contra o sol.
eu fiquei sem jeito e inventei logo uma maneira de disfarçar.
- Você nem o sol dá jeito. - eu falei e ela riu, só que riu diferente - estou brincando. você sabe que é linda de qualquer maneira, não é?
agora sim, aquele sorriso estava de volta, mas estava acompanho de buxexas vermelhas. ela ficou sem graça. estava sentada na areia, apoiou o corpo sobre os dois braços, colocando-os para trás e começou a olhar para o céu.
- Desde o primeiro dia eu te achei diferente dos outros garotos, João. - pedi para meus desejos pararem de falar essas coisas, mas reparei que não eram eles, e sim ela própria falando. e eu não estava forçando-a, e ela não estava sob tortura.
- Diferente como?
- Você entendeu. Eu gosto de você.
caralho! o que eu mais queria estava acontecendo e eu não sabia o que fazer. então ela fez. me deu um beijo. o beijo dela não se comparava a nenhum outro. eu não era mestre nessas coisas, mas já tinha experimentado beijos o suficiente para dizer que aquele sem dúvida era o melhor.
eu cheguei em casa, tomei banho e não consegui dormir.
as horas se passaram lentamente e quando o Sol saiu, eu não pude esperar e fui correndo até a casa dela. toquei a campainha mil vezes mas ninguém veio me atender.
liguei para o celular dela e tava dando fora de área. eu sou mesmo o cara mais azarado do mundo.
resolvi passar na casa do Pedrinho. quando cheguei lá, ele já estava saindo de bicicleta com destino a minha casa. ainda bem que cheguei a tempo.
- Você já soube, João?
- Soube do quê?
- A Estela chamou a gente pra ir a praia ontem para se despedir, ela ia se mudar hoje. Falou para a gente não comentar nada o dia inteiro, porque queria sentir que fosse um dia como outro qualquer.
o céu caiu sobre mim. não entendi o porquê dela ter feito isso. voltei para casa correndo. minha mãe estava no balanço da frente.
- Aquela sua amiga deixou uma carta para você ontem a noite quando você entrou. Tá em cima da mesa.

"eu gosto muito de você. ninguém me tratou tão bem como você me tratou. encontrei em você e nos meninos algo que eu sempre procurei em todas as minhas mudanças de endereço. já perdi muitas coisas e vou perder muitas outras, mas quero que você saiba que por onde eu vá, eu vou estar com você, e eu ainda voltarei para te ver.
eu estou indo embora, mas meu coração ficará com você!"

eu não lembro de outra vez na vida eu ter chorado tanto sem parar como chorei enquanto lia a carta dela. fiquei triste mas senti que tudo aquilo era muito sincero.
eu não sabia o que fazer de verdade, mas decidi esperá-la.
as férias passaram tão lentas, as estações transitaram até chegar o inverno.
as aulas voltaram a ser chatas e toda a monotonia voltou à minha vida.
- Ah não, mãe. não quero ir para a aula hoje não. porra! - falei na esperança que ela entendesse, mas ela não entendeu, como sempre.
voltei a mesma vida de antes, mas com a certeza que ela tinha validade.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

História de Joãozinho revoltado dois

vieram rolando em minha direção porque mal conseguiam ficar em pé de tanto que riam. o Romário estava roxo e o Pedrinho já estava sem ar. quando chegaram perto de mim percebi que tentaram disfarçar e prender a risada entre os cisos na boca:
- Você ta bem? - Pedrinho com a cara mais sínica do mundo.
os dois não suportavam mais aquela farça e mergulharam por mais 70 degraus abaixo rindo e rindo sem parar. sentamos nos banquinhos perto da cantina e com certeza o assunto não foi outro: aquela menina. de onde ela veio? por que será que entrou no meio do ano letivo? será que ela é filha de fugitivos? - Porra, romarinho, não viaja, caralho.
uma coisa era certa. na verdade duas. as pernas dela eram muito lindas (assim como todo o resto) e meu braço tava ralado, saindo até um pouco de sangue. motivo suficiente para eu gaziar, no mínimo, as duas aulas seguintes. é em uma situação como essa que aparecem as dores de cabeça do Romário e a dor de barriga do Pedrinho sempre frequentes e imaginárias, óbvio.
dribla o espetor-anão, passa por dois blocos e esquiva de alguns professores. pronto, chega-se à enfermaria. e como sempre está cheio de gente com as mais diversas desculpas. dor de cabeça, cólica, tonturas, ataques de asma, claustrofobia, mal estar, unha encravada - han?
ficamos do lado de fora, esparramados em três cadeiras. eu com um pequeno curativo melado com aquele remediozinho que arde pra caralho, a anta do Romário brincando com os próprios dedos e o Pedro ainda com a cara de espanto depois de ter visto a novata.
- Acorda, velho. Tá parecendo que viu um fantasma, assombração, sei lá.
- Ainda tô impressionado. - acho que foi isso que ele disse.
você já deve ter assistido aqueles filmes que passam à tarde na televisão que quando a garota está passando a câmera vai ficando lenta e vai tocando aquela música meio tosca no fundo. era ela. caminhando devagar, fingindo uma cara de enjôo - eu reconheço quando alguém está fingindo uma doença, afinal são muitos horários de prática.
- Você se machucou foi? - será que toda vez que ela me visse, ela ia rir de mim. me senti um completo idiota, talvez eu fosse mesmo.
- Não foi nada.
os dois retardados prontamente ajeitaram-se na cadeira e começaram a sorrir para ela com uma cara que eu prefiro não comentar.
- Eu sou a Estela. Não lembro de você ter falado seu nome.
- É, não tive tempo, estava ocupado demais caindo.
e pra variar um pouco, ela riu de mim. só que dessa vez foi diferente. o rosto dela ficou corado.
essa é a parte da narrativa que eu começo a descrevê-la. mas vou tentar me prender ao simples. não quero ter que fazer um outro livro só para tentar adjetivar cada parte dela. as pernas todos já devem imaginar. ela é magra, tem o meu tamanho, tênis simples como as unhas da mão, simplesmente lixadas mas sem nenhum tom de esmalte. cabelo bom, meio encaracolado, meio liso, dourado e batiam um pouco abaixo do meio das costas. a silhueta do rosto era a coisa mais linda que eu já tinha visto. não tinha a cara gorda nem muito magra. um nariz fino, olhos arredondados e castanhos. caminhava não, flutuava.
- Eu sou o João.
- E eu sou o Pedro.
- E eu sou o Romário.
os dois quase falaram em uma espécie de coral desafinado se intrometendo na conversa. e ela riu. será que ela só sabia fazer isso? mas porra, era o suficiente para tirar muitos suspiros e mexer com a imaginação de pobres caras como nós.
- Eu morava em Londres, mas meus pais foram transferidos de volta para Petrópolis.
- Eu sabia que você vinha de Londres. Os ares de lá fazem muito bem a pele, sei muito bem como é isso. - puta que pariu, Romarinho. o lugar mais longe que ele tinha ido, foi a excursão que o colégio fez para o zoológico.
- É, deve fazer bem mesmo. Eu vim para esse colégio porque é perto de minha casa, mas não conheço ninguém aqui.
- Não se preocupe, nós te acolhamos. - rosnou o Romário.
- Nós te acolhemos, jumento. - concertou Pedrinho enquanto todos riam.
e aí foi o início de uma longa amizade.
juntamos o útil ao agradável. ela é linda e gente boa. éramos três, agora somos quatro. a partir daquele dia, nos tornamos inseparáveis. o Romário venceu a 5ª, eu, o Pedrinho e a Estela passamos para a 8ª.
chegaram as férias.

continua...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

História de Joãozinho revoltado um

- puta que pariu, caralho! eu não vou pra porra de aula nenhuma hoje! não enche!- eu pensei que sendo tão ignorante ela ia entender. ia ficar chateada mas ia entender. mas porra, ela não entendeu e ficou chateada mesmo.
enfim, lá vou eu para a minha aula. professoras gordas demais. as minas magras demais. os caras retardados demais e o corno incomprável do porteiro. ligo meu mp3 surrado e fudido e vou andando com o sol dois palmos acima da minha cabeça que vai quase rastejando.
quando eu chego eu dou de cara com a nojenta da dona da cantina. ninguém sabe mas eu acho que ela sempre cospe no lanche de todos e bota pedaços de unha no liquidificador e prepara os sucos "cremosos". antes de chegar à escada de setenta longos degraus, ainda tenho que passar pela sala do filha da puta do coordenador que usa umas perucas, no mínimo, surreais. após vencer toda a escadaria, ainda tenho que me deparar com os retardados que ficam olhando torto pra mim, as piranhas que exalam um cheiro de motel de beira de estrada e uns caras estranhos que ficam sentados no chão, usam calças de pescador, tênis precisamente amarrado, cabelo devidamente penteado e uma puta de uma conversa de nerd.
eu sei que sou um pouco anti-social. eu sei que tenho vários problemas com a minha própria vida mal resolvida, que não lavo os pratos em casa, desobedeço minha mãe as vezes, não forro minha cama e finjo tomar banho, mas porra, porque minha própria mãe, sangua do meu sangue, tem que me enviar todos os dias para esse castigo eterno, para essa tortura psicológica, para esse desgaste físico. o que eu fiz para você, mãe? caralho.
começa a primeira aula. química. o professor é gordo, velho e rabujento. eu acho que ele não é desse planeta, ele fala um monte de coisas que eu não entendo e sei que nunca vou entender e nem quero. quando eu era mais novo, lembro de minha mãe dizer: Joãozinho, para de fazer cara feia porque se o vento passar, você vai ficar assim para sempre. eu acho que foi isso que aconteceu com ele. coitado, eu tenho pena dele as vezes.
segunda-feira. meu final de semana foi um saco. primeira aula de química e agora duas horas de matemática. puta que pariu. quem inventou matemática? quem tentou responder todos os exercícios da matemática? quem inventou os exercícios?
tocou o sinal. caralho, finalmente tocou o sinal! então eu pego meu sanduiche de presunto e queijo que minha mãe enrola no papel laminado e jogo fora, porque ninguém merece, né? eu desço rápido, voando pelo corrimão e chego até lá embaixo, e o Pedro já está me esperando com aquela cara de bunda dele.
- Você já acabou de ouvir o cd da Nação Zumbi que eu te emprestei, viado?
- Qual é, Pedrinho? Deixa de ser chato.
Entre ofensas e brincadeiras, a gente foi lá do outro lado do colégio pra falar com o retardado do Romário, que já reprovou duas vezes na 5ª série. a gente costuma falar que ele vai fazer mestrado na série. eu não aguento mais essa escola passando ano a ano, imagine fazer cada série três vezes. não quero nem pensar nisso.
- Meu irmão, você já viu a gatinha que entrou na 7ª série? - falou o Romário com uma cara enorme de espanto. ele já costumava ser estranho, a cabeça grande, o tronco achatado e os pés torto.
- Como que eu não a vi lá no meu bloco?
- Você do jeito que vive voando, Pedro, não sei como você ainda não caiu na escada.
depois de rirmos um da cara do outro e de falar mais uma vez que o Romarinho é feio pra caralho, nos arremessamos de volta para a história da menina novata e fomos atrás dela lá no bloco onde estudo.
subimos correndo os 70 degraus e xingando o viado que decidiu colocar as salas da 7ª série no último andar. 67, 68, 69... "puta que pariuuuuuuuuu". sempre conto todos os degraus, na tentativa de um dia a escadaria diminuir, e quando estava no último, pisei o pé direito no cadarço do tênis esquerdo e sai cambaleando até o outro lado, só não fui mais longe porque me enrosquei nas pernas de alguém.
- Eita queda do caralho! - falei rindo de mim e curtindo um pouco da dor que estava sentindo quando coloquei o braço para amenizar a queda.
ouvi uma risada que parecia mais uma canção suave. quando olhei para cima das pernas que amorteceram minha queda:
- Caralho, que porra é essa?
- Você devia me agradecer e não me xingar, não é? - disseram as pernas falantes rindo.
e aí já não eram apenas pernas, eram muito mais. não que as pernas não bastassem, e como bastavam, mas, porra, o resto valia muito mais a pena.
- Você é linda mesmo.
- O quê? Acho que você bateu a cabeça também.
- Quer dizer, obrigado pelas suas pernas.
- Han? - e a risada dela intensificou-se.
- Não, você está me entendendo mal. - falei levantando-me subitamente - Eu só quis agradecer por você ter amenizado minha queda.
- Não foi nada. - e continuou rindo.
finalmente me dei conta de que todos estavam olhando para mim, falando o quanto eu era burro pra caralho e rindo muito da minha queda. rindo muito mesmo. até fizeram uma comunidade no orkut para mim.
agora as pernas que me ajudaram, deram meia volta e saíram sem dizer mais nada.

Continua...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Graças a Deus

nasceu um novo dia e ele é imenso como o céu, ele é cheio de raios de sol impedidos de passar pela minha janela, ele é imponente e promissor. a noite passara bem e o dia chegara sem qualquer especie de problema. graças a Deus. por tudo. por cada contorno artístico que as nuvens desempenham, por cada pássaro que canta lá fora, por cada pessoa que respira, por cada respirar por pessoa, por cada célular no meu corpo. graças a Deus pelos meus dois braços e minhas duas pernas. graças a Deus por todas as maravilhas oculares da natureza e pela chuva que cai no final da tarde. graças a Deus pelas celebrações e por todas as comemorações diárias, pela minha refeição e pelo meu teto, por todos os sentimentos remanescentes na face da terra. graças a Deus por minha vizinha e o seu rebolado, pelo meu futebol, pelo meu boteco, pela minha família, pelos meus amigos. graças a Deus.

acabou o velho dia que vai para dar espaço para um outro novo. graças a Deus!

Monólogo da madrugada apaixonada

eu sou. eu penso. tudo aquilo que sei que sou e penso me remete a você. devo muito do que sou hoje a você e tudo que penso me leva direta ou indiretamente a você. sou loucamente apaixonado por tudo em você e desde o início bolo mil maneiras de estar com você, fiz planos para te conquistar, mesmo quando eu não sabia ou quando eu prefiria não acreditar ou até quando eu sabia e não conseguia acreditar que alguém como você, repleta de infinitas qualidades, poderia se interessar de verdade por alguém tão inseguro como eu.

eu sou. eu penso. se penso, logo existo, então existe sim uma parte de mim que só existe quando penso em você. talvez seja o melhor de mim, a parte que eu nunca havia descoberto, a parte que eu nunca fizera questão de descobrir. hoje eu sei que é só com você e por você que essa parte existe. e logo, existo por inteiro, saí do plano paralelo das ideias e utopias para a projeção perfeita que tudo em você me proporcionou.

eu sou tudo que penso e você é tudo em mim. saiu do pequeno espaço que aquela parte, que tornou-se organismo com vontades próprias, e partiu para a complexidade da vida. não é alguma especie de dependência ou necessidade, mas sim um tipo raro de compatibilidade, um tipo clássico de encantamento, um esteriótipo do amor. se amor confunde-se com a loucura e com a falta de lucidez, eu não sei, mas que já passei da barreira da razão há muito tempo, eu sei que passei. fiz, faço e farei coisas por você que ninguém em outra parte do universo fará por outro alguém.
como alguma outra pessoa importante disse mais ou menos assim: duvida do brilho das estrelas, mas não duvida do meu amor; hoje eu sei realmente o que cada espaço dessa afirmativa quer dizer.

eu sou você em cada respirar e eu penso em você a cada volta que o ponteiro percorre pela circunferência do relógio que separa entre suas idas e vindas no meu humor.
eu sou tudo que quero ser e devo tudo a você e o seu amor.

obrigado por tudo! obrigado pelo amor!