sexta-feira, 30 de setembro de 2011

contracorrenteza

figuras de linguagem não conseguiriam explicar a vocês o sentimento que arde em mim. viciei o meu coração com tristezas maiores para amenizar contratempos menores, e agora estou colhendo o resultado dessa doença. vocês que me lêem na surdina, agora conseguem me ver com as mãos sujas e com o rosto completamente suado. eu tentei correr, eu tentei sair, eu tentei fugir disso tudo. mas agora eu desisto. vou lavar minhas mãos, enxugar o meu suor e vou parar de nadar contra essa correnteza. vou parar de tentar me levantar porque eu cansei de cair e não sair do lugar. não sei o que aconteceu há tanto tempo que me prende a essa mesma situação, então eu resgato em minha memória algo que vocês, leitores, nunca entenderão, ou talvez sentem o mesmo e preferem esconder de vocês mesmos como eu fiz até agora. mas eu desisto! a tristeza, visita constante, chegou novamente mas dessa vez vou abrir a porta para que ela possa entrar. quando estiver tocando o violão e as cordas insistirem em tocar aquela melosa melodia, não vou parar de tocá-las, vou simplesmente ouví-las ecoarem em peito tão desfalecido, em abismo tão incerto, em correnteza tão cruel. dilacerando veias e inundando vilas inteiras; e mesmo que você ainda persista e exista, maldita sejas, clarisse.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

engarrafamento

Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 1982.

navegue entre todas as gotas de água e seres vivos que se embrenharam no fundo do mar. navegue por todo o horizonte azul até alcançar terra firme, futuro incerto. pra onde as ondas te levarem, pra onde o vento resolver te direcionar, até parar nas mãos de quem o destino, caprichosamente, tenha escolhido para esta recepção.

eu escrevo linhas tortas pois em minha terra já não há mais amor. escrevo e enxugo as lágrimas que talvez sejam as últimas que cairão sobre esse solo. escrevo o que eu não posso dizer e acabo dizendo o que não quero mais escrever. quero ser compreendido, mas não quero que ninguém tente me entender. quero ser interpretado, mas não quero que ninguém me leia. então escrevo para que olhos desatentos sejam novamente olhos esperançosos, para que semente semelhante a que plantei em meu jardim não acabe como a minha flor-sem-vida entre flores mortas em quintal tão morto.

se você chegar a mãos delicadas, que as conserve. se você alcançar coração gelado, o derreta. se encontrares tristeza, semeie alegria. te escrevo com todo o carinho que em mim resta, como um último suspiro de esperança, e ao mesmo tempo de alívio. te escrevo exatamente onde morreu a minha última flor, e onde te encerrarei. então desejo do fundo de todo o meu sentimento já vivido até aqui: chegue a olhos cegos e desperte nelas a verdadeira visão, o poder de enxergar o amor em coisas tão simples como uma carta, como você, guardada dentro de uma garrafa de um vinho qualquer.


todos os amantes.

sábado, 10 de setembro de 2011

infinita tristeza

enorme sorte geográfica
logo ali, do outro lado do muro
eu criei meu refugio
no passado,
que bem guardado
não foi esquecido,
muito menos apagado
como um retrato
muito bem emoldurado
seus cabelos grisalhos
as lembranças guardei
e nas lembranças me abraço
me apego - e te digo sincero
infância saudosa
de uma quase visita inquilina
passei a ser
na casa pasqualina

chocolates na epoca
sorriso no rosto
um beijo dengoso
de quem sabia agradar
falava no tom certo
não precisava me esforçar
eu ficava encantado
parado, atento, ouvinte
e todo dia seguinte
eu de novo estava lá.
deixava a minha propria tv
abandonada na minha propria sala
pra atravessar o muro
e ligar a de lá

lembro das fotos antigas
dos móveis pesados
do aconchego do quarto
e hoje não consigo imaginar
o vazio que ronda o grande corredor
não consigo entender
como pôde acontecer
com alguém igual a você

onde estiver, o menino que fui e o homem que hoje sou
estarei com você que foi o meu primeiro amor!


à maior parte da minha infância.
descanse em paz.