terça-feira, 14 de maio de 2013

Identidade

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Natália formou-se em enfermagem na Inglaterra, pra onde havia se mudado com os seus pais desde o surgimento da União Soviética. Depois de 25 anos e de perder os pais em um acidente, decidiu voltar para Moscou. Convidada pela Lomonosov, a universidade estadual da sua cidade natal, passou a equilibrar seu tempo entre aulas para lecionar e plantões. Ainda assim arrumava algum tempo para completar sua tese, que acabara de completar dez anos, e trabalhos beneficentes.

Mais um inverno castigava a Rússia. Natália acordou-se subitamente, não sentia os pés, nem conseguia respirar. Contorceu-se em torno de si mesma, segurando a colcha com força, os olhos arregalavam-se. Sentia o rosto empalidecer-se e as lágrimas cortarem o rosto. A visão foi escurecendo cada vez mais, quando de repente, um clarão. O mesmo pesadelo por vários anos, várias formas, diferentes gestos, mas a mesma aflição e o mesmo triste fim. Um banho quente, um café, um cigarro, tranquilizantes. "Que rotina dos infernos" - reclamava sempre. Queria fazer tantas coisas na vida, que acabava não fazendo nada, não mudava nada. Colocou todas as roupas que precisava, a temperatura tinha subido um pouco, tornando possível uma caminhada madrugada a dentro pela Praça Vermelha.

Nícolas acordou com um grito ensurdecedor. Levantou mais depressa que as próprias pernas, sentiu o chão chegar mais próximo e encostar em sua testa. Mal sentiu o tombo e correu deslizando pelo piso do casarão. Os pés descalços, desavisados, gelavam, mas nada disso foi percebido ou o impediram de chegar até o quarto de seu pai. Igor era um ex-general da época da URSS, abandonado pela esposa, uma idealista que enlouqueceu na era dos czares, abandonando-o com o pequeno Nícolas de apenas um ano. Não teve uma vida fácil, mas sempre viu prazer em quase tudo que fazia, mas nunca foi muito de dar risadas ou uma pessoa fácil de lidar. Poeta e compositor, teve grandes paixões em sua vida, mas nunca chegara a casar-se novamente. Após tantos anos e tantas lembranças, recebeu da vida o retorno. Será que o destino é isso mesmo que dizem? Sabe, toda aquela magia em um reencontro. Luzes, cores, sons, amores. A vida para Igor e o seu filho nunca foi fácil, mas porque agora seria? Nícolas arrumou-se, pegou agasalho, sobre-tudo, cachecol e a cadeira-de-rodas do seu pai, e o levou para dar uma volta em seu lugar favorito de toda a grande Moscou.

Ninguém pode prever ou imaginar o que vai acontecer. Somos os maestros de nossas vidas, mas somos reféns do tempo, acúmulos de sentimentos. Nós somos o que já fomos no passado, o que somos hoje e o que podemos ser amanhã, um grande apanhado de momentos. Nós somos cada momento a todo instante. Igor tentava se lembrar da época dos desfiles militares que aconteciam na praça, confuso pediu que seu filho contasse alguma história. Por alguns minutos, raros minutos, pôde-se ver o brilho em seus olhos, a magia estava de volta. Para um cego, enxergar é um milagre. "Malditos os tantos que reclamam de suas vidas", - pensava Nícolas enquanto via seu pai revivendo seus momentos favoritos. Natália adorava o céu, mas ficou encantada com a cena que via. Um senhor de idade que levantava-se lentamente da cadeira de rodas, chorando e sorrindo enquanto seu filho gritava e cantava, e os dois se abraçaram, como se não se vissem há anos. "Uma foto para a eternidade". E os olhos se encontraram. Esqueça tudo o que você já viveu, esqueça tudo que você já soube sobre o amor. A vida pareceu soprar novamente.

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