quarta-feira, 13 de março de 2013

Orquídeas vermelhas


Estou aqui pra ouvir o que você tem a dizer, das mil coisas, e das mil maneiras que você tem pra me falar. Fale sobre o dia chato, sobre o idiota no trânsito, sobre o médico que demorou. Estou aqui sempre pra ouvir sobre sua unha quebrada, sobre as aulas que você lecionou na faculdade. Juro que gosto de ouvir sobre os livros que você adorou ler. Estou com os ouvidos sempre a postos. Te dar atenção e ver você gesticular com um sorriso ou uma cara emburrada, me faz ganhar o dia, me faz ficar ali parado, olhando seus lábios e suas feições. "Eu juro que nunca vou te deixar."

Quando erro, estou sempre disposto a pedir desculpas. Você as vezes não quer ouvir, diz que nunca me perdoará, mas seus olhos não te deixam desviar a atenção. Você diz que não, mas nunca larga a minha mão. Suco de laranja e sanduíches na mesa com uma carta, um recado na geladeira, uma simples mensagem de texto. Não são as coisas que você diz, mas simplesmente quem você é.

Tive um sonho ruim, mas nossa briga foi muito pior. Te liguei pra dizer que não queria mais brigar, liguei pra te dizer que se fossemos nos desentender mais vezes, que logo deveríamos nos casar. Então eu fiz o jantar, fato raro, levando em conta que eu não sei cozinhar. Eu fiz um poema, mais raro ainda, nem música costumo escutar. Deixei tudo pronto. Tentei te ligar, mas você estava no meio de uma aula, a última do dia, a que ainda te impedia de voltar. "Ainda tenho meia hora, o que falta fazer?" Já sei, saí, sabendo ser somente sincero um pedido de desculpas, se as flores viessem juntas. Mas você liberou seus alunos meia hora mais cedo, pegou o carro e dirigiu depressa, como se estivesse com medo de chegar em casa e eu ainda estar me lamentando por ter te feito chorar. "Eu sei, foi a TPM, isso tudo vai passar."

A banca de flores estava fechando. O sol por trás dos prédios já perdia a cor e as suas flores favoritas eu sabia de cór. Orquídeas vermelhas. Só me fez lembrar o quanto, tudo em você, me fazia te amar sempre mais. Como um ciclo. Como um respiro aliviado depois de um caldo, uma onda mal surfada. Mas de todos os tombos que tomei, das milhares de vacas que levei, nenhum doeu tanto quanto o que havia acabado de levar. Caí de um precipício por mil anos. Senti a dor de dois milhões de facas perfurarem a minha lata vazia. Fui esmagado por cem elefantes ao ver o seu carro capotado há duas quadras da minha casa. Seu corpo costumava estar entre meus lençóis e agora estava preso entre as ferragens. Meu coração parou de bater. Tantas coisas por dizer, tanto amor pra amar.

Um comentário:

  1. 3° texto que eu leio que vc mata a personagem, chega a doer em mim!

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