segunda-feira, 25 de março de 2013

Acesso. Parte 1.

Estão todos olhando pra mim. Perplexos, atentos, apreensivos. Não conseguia me mover, nem um passo, nem um piscar de olhos. O vento cortou o silêncio, que rompeu-se com a nova confusão. Percebi que a minha camiseta estava encharcada de sangue quando braços me envolveram e me arrastaram por metros. O que estava acontecendo ali? A minha cabeça doeu primeiro, tentei lembrar do que estava acontecendo mas não conseguia sequer um clarão de lucidez. Depois a minha mão direita, o formigamento foi ficando cada vez mais forte. O poste queimado da esquina havia sido consertado há uns dois dias atrás. Conseguia me lembrar do carro de reparos na rua, conseguia lembrar do meu aniversário há três meses atrás, mas os últimos cinco minutos, nada!

"Gabriel? Gabriel? Você está me ouvindo? Gabriel?" Os postes, a rua, a cidade inteira, poderia estar tudo apagado e eu não perceberia naquele momento. Aqueles grandes olhos cor de mel que me acompanhavam, me entorpeciam, me iluminavam. Quanta luz, quanta paz. Eu não sabia onde estava, mas sabia que enquanto aqueles olhos me vigiassem, eu estaria bem. Não reconheci a rua em que eu e Mirella tínhamos nos conhecido até reparar que estávamos debaixo do mesmo poste quando nos beijamos pela primeira vez. Lua linda, noite breve, não esqueço os versos, não esqueço os lírios daquela noite. Os risos dela me fascinavam. Mas tudo isso havia ficado para trás.

"Eu estou bem, Mirella. O que aconteceu?" Tentei escolher as palavras certas sem sucesso. Os olhos que me acariciavam a alma, agora me reprovavam. Senti uma pontada no peito, uma dor sem fim, mas sem explicação ainda. Não consegui responder mais nada, então acabei ouvindo muitas coisas sem sentido. Não consegui assimilar quase nada. A voz dela foi ficando mais baixa, e cada vez mais baixinha, estava me esforçando muito para tentar entender. E cada vez mais fraca, até que não ouvi mais nada. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o nosso poste.

Acordei no outro dia na cama de um hospital. Minha namorada estava dormindo no sofá do quarto agarrada a um livro. Uma enfermeira tinha acabado de entrar no quarto e, ao reparar que eu estava acordado, me sorriu discretamente. Mais tarde meus pais chegaram e conversamos por toda a manhã. Mirella havia acordado e estava encantadora como sempre. Seu sorriso estava intacto, apesar da noite de sono perdida. O médico chegou no fim da tarde com meus exames e uma cara bastante preocupada. Na manhã seguinte, recebi a visita de uma psicóloga. Conversamos sobre a minha semana na faculdade, sobre o que eu fazia no trabalho, sobre minhas irmãs, meu namoro, amigos e sobre aquela noite. Eu não conseguia lembrar o que tinha acontecido. Então ela me contou.

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