quinta-feira, 28 de março de 2013

Acesso. Parte 2.

O sol estava lindo naquele dia. As cortinas não estavam abertas, mas eu podia sentir toda aquela energia e calor. Sempre tentei enxergar melhor a minha vida com os olhos fechados, tentando aumentar a minha percepção em relação ao meu redor. A minha mão direita ainda doía um pouco, respirei fundo, e comecei a exercitá-la devagar. Abre, fecha, aperta, solta, abre. Onde estava meus pensamentos? Pra onde foi a minha memória? Eu só conseguia lembrar da sensação, como se estivesse caindo de um precipício numa espécie de pesadelo, o qual não conseguia acordar.

A conversa com minha psicóloga me deixou - mais - nervoso. "Quando você e sua namorada se conheceram?", "vocês brigavam muito", "vocês se davam bem?". Ainda bem que Mirella havia ido pra casa descansar um pouco, ela sempre chora quando me vê nervoso ou triste. Sempre muito compreensiva e delicada, que sorte a minha! "Gabriel?" A doutora me jogou de volta na conversa. Você precisa ser forte. Até então todo aquele clima no quarto do hospital parecia se referir ao meu estado, aos acontecidos daquela noite. De certo modo, parte de tudo, tinha essa explicação. Mas eu não havia enxergado o que tinha a mais.

"Sua namorada faleceu, Gabriel. Eu sinto muito."

Quando sinto forte dores de cabeça, as vezes penso que se eu fizesse um corte em alguma parte do corpo, faria com que eu esquecesse aquela terrível enxaqueca. Mas a minha cabeça resolveu explodir e não haveria corte profundo o suficiente pra me fazer esquecer disso. Ouvi todas as palavras direcionadas a mim com bastante atenção. Minha cabeça estava em outro universo, pedaços do meu corpo foram espalhados por todo o universo, mas minha atenção ainda estavam naquelas palavras. Então minha memória resolveu voltar. Um acidente de carro dois dias antes, em frente a casa de festas daquela noite. Perdi o controle do carro e bati em um poste no final da rua que acabou derrubando as fiações, geradores e a energia em toda a rua. Desde aquele dia estive inconsolável, sem alma, sem vida.

"Foi um acesso de raiva depois de muitas cervejas. Você foi até a boate, arranjou uma briga que acabou se generalizando. Testemunhas disseram que você saiu correndo da boate e depois te acharam na rua, desmaiado e sozinho."

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