terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Madrid, ESPANHA, 1982.

"As melhores lembranças que tenho da minha infância foram na biblioteca com meus pais. Minha mãe foi uma grande escritora, e uma grande contadora de histórias. Meu pai sempre foi muito presente, apesar de conciliar os concertos com as aulas de piano que dava na Universidade Cumplitense de Madrid. Tive uma infância inspirada nos romances franceses que li, cresci ouvindo jazz e me apresentando por todos grandes teatros com a companhia de balé.

Inês foi o nome da minha tataravó, dona de mãos pequenas que cozinhavam a melhor paella de toda a Espanha. Todos dizem que tenho os mesmos olhos verdes que ela, talvez por isso meus pais tenham decidido homenageá-la em minha certidão de nascimento. Mas não herdei apenas o seu nome, ganhei muito mais que belos olhos dela. Publiquei o meu primeiro livro no primeiro ano da faculdade. Minha família é dona de uma editora e a publicação não foi um problema, o sucesso demorou, mas chegou. Me formei em jornalismo e no fim do curso já tinha um caderno de poesias no EL PAÍS, jornal espanhol de grande circulação. Me apresentava em grandes sarais que rolavam nos fins de tarde em praças e bares locais. Poesia corre em minhas veias, minha tataravó foi quem me deu.

Viajei de ferias para paris, pra tentar me desocupar um pouco. A fama dos meus versos correu por toda a Espanha, e eu estava cada vez mais atarefada, precisava urgentemente de uma folga. Mesmo assim não consegui ficar longe dos livros, e felizmente, foi em outro autor que reconheci meu amor. Entrei em um pequeno café e fui atendido por uma simpática senhora, ela me mostrou o pequeno sebo que ela tinha, com coleções invejáveis. O que mais me chamou atenção foi um manuscrito com capa de couro. A senhorazinha me abriu um sorriso orgulhoso e resolveu contar a história daquele livro. Eu não me incomodei, muito pelo contrário, nem percebi que já haviam passado duas horas desde que entrei no café.

A tarde caiu, a noite chegou e a conversa não cansava nunca. A dona do café me contou sobre um jovem escritor francês com potencial altíssimo, que escrevia ótimas histórias mas não tinha dinheiro para publicar seus livros, apaixonado por literatura francesa e apaixonante, e que por coincidência, era seu neto! "Um cavalheiro perdido no tempo, um dos últimos da velha paris encantadora." Acabei sorrindo com um enorme tom de interesse desesperado ao ouvir o seu comentário. Até que a risada virou angústia. Damien interrompeu-nos com uma eufórica saudação a sua vó, apresentou-se a mim e pediu desculpas, porque sua maior - e única - fã estava me enchendo a cabeça.

Sentamo-nos novamente pra continuar a conversa, mas não era mais a mesma coisa. As portas do café já estavam fechadas, duas garrafas de vinho francês figuravam na mesa, um prato de queijos e um clima até então inabitado por mim. O sorriso aconchegante da senhora havia transformado-se em um riso maquiavélico, enquanto seu neto ia comprovando todas as características citadas antes. Não era possível alguém ser como ele, mas não era mais um livro, era real e estava acontecendo comigo. Fiz versos sobre todas as histórias de amor que ouvi falar, que vivi ou que sonhava viver, e nada era parecido com a atmosfera daquela Paris que eu acabei conhecendo. O que eu poderia ter feito? Histórias de amor vendem muito bem, mas será que existe mesmo um final feliz? Damien e eu eramos estranhamente parecidos, e eu tive de verdade a sensação de que estive esperando por ele por toda a minha vida.


Inês Bueno."

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