segunda-feira, 13 de maio de 2013

Melancolia

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Cair em esquecimento, sofrer indiferença, ver nos olhos de outro alguém que não existe mais espaço naquela alma para você. Triste fim, choro sem tamanho. O mundo se tornou um lugar minúsculo, ele criou um universo paralelo e nesse já não havia mais espaço para as decepções. O muro das lamentações se tornou o seu destino, fadado a desacreditar. Não existe nada pior que a falta de esperança.

Nícolas era um grande advogado renomado na cidade e passou a vida inteira tentando encontrar tempo para sua vida social e desculpas para os dias em que não comparecera a festas familiares, reencontros com velhos amigos e os concertos de suas filhas. Em troca de todo esse tempo de renúncia, uma enorme recompensa financeira apreciada em bens duráveis por muitas gerações. Viajara o mundo inteiro até descobrir que o melhor lugar para viver era em sua amada Moscou. Nícolas sempre fora amante da estrada, mas depois que sua namorada na adolescência engravidou, resolveu estabelecer-se. Junto com Anna tiveram duas filhas, as quais não viu crescer. Desde que se separaram, formou-se em direito e a cada ano trabalhava mais e tinha menos tempo.

Mudou-se para um casarão velho perto da praça vermelha, o lugar favorito do seu pai, o qual passou a morar junto, na antiga Moscou. Reinventou o jardim, arrumou a lareira, trocou algumas janelas tornando o lugar mais arejado e agradável. O quarto de seu pai era grande, havia uma cabeceira antiga, um closet magnífico e uma banheira com detalhes dourados. Só faltava contratar uma enfermeira dedicada, cuidadosa e paciente. Nícolas e seu pai sempre se deram bem, se pareciam em tudo, conversavam fumando charutos e experimentando a coleção de bebidas que colecionavam como hobbie. Tudo isso parece ter se perdido no tempo desde que foi diagnosticado com Mal de Alzheimer.

Geadas caíram, dias vieram, noites seguiram e tudo que passou não voltou, nem nunca voltará. O médico pediu para ter forças, disse que seria difícil e contou mais detalhes sobre a doença degenerativa. O tempo não facilitou em nada, mas ele ainda tinha que trabalhar, e sentia uma soco no estômago toda vez que chegava em casa. Seu pai estava sempre tentando se reconhecer no espelho, e sempre que era abordado, se assustava com o próprio filho, que havia se transformado em um estranho, reduzido a ninguém. Existiam alguns momentos de lucidez, mas os momentos seguiam com mais tristeza ainda. A doce e velha Moscou perdeu todo o encanto, e o mundo caiu sobre o casarão. As grandes e arejadas janelas viviam fechadas, gritarias se ouviam por toda a vizinhança, todas as flores do jardim morreram juntamente com as lembranças do passado. Caído em esquecimento, depressivo e melancólico, Nícolas não pôde fazer nada, a não ser, depois de 40 longos anos, chorar como uma criança novamente, sozinho em seu quarto. Olhando para o céu estrelado russo, pediu ajuda a qualquer força do universo. Estava vivendo um inferno astral, mas estava prestes a presenciar uma grande reviravolta.

2 comentários:

  1. Jéssica Machado13 de maio de 2013 21:46

    poderia virar filme *.* você escreve com maestria.

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