quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

a olhos-brilhantes

Fazendo malabarismos para tentar equilibrar-se com tantas bagagens, ela conseguiu saltar porta a dentro no ônibus. Franziu a testa e esfregou toda a memória para lembrar em qual poltrona viajaria e não precisar tirar a passagem do bolso.

Vinte e cinco! - gritou sua consciência impaciente. Esquivou-se de uma senhora deitada na poltrona com a cabeça virada para o corredor, gingou para um lado e arremessou, como uma alavanca, as malas mais pesadas para o bagageiro em cima da poltrona. Ajeitou seu casaco e respirou bem fundo, procurando um bom motivo para realmente estar viajando para visitar o seu pai, com quem não falava há mais de cinco anos.

As risadas foram bem tímidas, mas não o suficiente para serem repreendidas por uma segunda voz, mais grossa e de tom um pouco menos amigável. Tici estava sorrindo da mulher que, parada a sua frente, viajava com a cabeça nas nuvens, enquanto seu pai ficava cada vez mais embaraçado.

Arremessada de volta para o ônibus, Gabriela caiu em si e deu de cara com o número da poltrona coincidente com o que estava impresso em sua passagem. Era de fato seu lugar, mas na poltrona, estavam enormes buxexas se afogando em um grande casaco de couro, com olhinhos puxados, franjinha e uma pequena janelinha no sorriso.

- Eu falei que esse lugar era de alguém, mas ela insistiu que comprou uma passagem para ir ao meu lado. - disse em um tom de repreensão, enquanto olhos-brilhantes continuava olhando atentamente para a mulher bem vestida a sua frente.
Em um piscar de olhos, a menininha pulou da poltrona para o colo do seu pai, que desculpou-se. Gabriela sentou-se e conversou com a criaturazinha que a encantou em poucos minutos. As duas conversaram sobre maquiagem, bolsas, castelos, bonecas e sapatos de salto alto. Tici falou sobre a comida que seu pai fazia que ela mais adorava, o quanto gostava de cafunés e ainda tentava convencer sua nova amiga, que a vida de uma princesa não é tão fácil quanto todos pensam.

Tici já estava acomodada em cima dos dois quando dormiu. André desculpou-se mais uma vez, mas a mulher que acabara de conhecer, só conseguia pensar na sorte de ter conhecido duas pessoas tão encantadoras.

Um comentário:

  1. tomara que crie esperanças para que ela não deixe de falar com o pai mais 5 anos

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