segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ciclo

explodiu. eclodiu dentro dele vários sentimentos e a própria abstração lhe veio a tona em forma de dúvidas e incertezas. quis sumir e fugir dali, mas ele já estava em lugar nenhum, ninguem o acharia ali. quis gritar mas não teve voz. sufocou-se e procurou ar, mesmo sem querer respirar. o coração acelerou mesmo quando ele queria parar. a música de fundo era tensa, composta por acordes menores que pintavam a cena com sentimentos de tristeza, melancolia e angústia. o clima era pesado, bem pesado, e quase não havia luz naquele quarto, se não fosse pela pequena brecha no telhado por onde os raios de sol passavam e encontravam justamente a sua testa.

noventa dias seguidos de pesadelos aterrorizantes deram em todo esse mal-estar. uma ferida foi aberta e ela não era incurável, ele que não queria cicatrizá-la. acostumou-se com a dor e com todos os inconvenientes que lhe causava. ele lembrava dela a cada instante e lembrava de muitas coisas que fizeram juntos antes de romperem o relacionamento. ele uma vez disse que não saberia viver sem ela, e agora estava ali, deitado, mergulhado em profunda desilusão, tendo que acostumar-se e reaprender a viver daquele jeito: sozinho.

revirava a caixa com todos os presentes que ganhara no namoro, repassava momento por momento e sempre arranjava uma desculpa para o amor ter parado de passar pela via contrária que dava diretamente em suas entranhas. procurava, desperada e frustradamente, achar soluções que tivessem efeito e que a fizesse voltar atrás. cantava as músicas e tentava terminar as poesias que fizera para ela, afim de ressucitar os traços do rosto de sua ex em seu pensamento, traços cada vez mais apagados de uma face cada vez menos requisitada em sua cabeça.

é o ciclo da vida amorosa. o amor da vida dele durou menos de dois anos, ele continua achando que não gostará de ninguém como gosta dela, mas isso vai passar. a dor vai parar, o choro vai cessar, ele não vai mais se sentir inconformado, não vai mais evitar filmes românticos nem deixar de ouvir as músicas que os dois gostavam, não vai sentir raiva ao vê-la com outro cara, e tudo vai passar, mas não pelo comodismo, pelo acostumar-se com aquela ferida aberta. vai passar porque é assim que as coisas acontecem, porque as coisas tem que acontecer.

Um comentário:

  1. Gosto da sua forma de se expressar, de como você organiza seus sentimentos e os poetiza. Não é apenas uma junção de palavras com linguagem rebuscada, tem conteúdo. Parabéns.

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