sexta-feira, 15 de junho de 2012

Amuletos

No relógio já passavam das duas da manhã quando o garçom veio trazer o bilhete. A letra parecia ter vindo de um desses manuscritos antigos, o papel parecia ter sido resgatado do lixo. Eu não conseguia ler direito, nem prestar atenção por causa do barulho, decidi sair do bar, encostei-me em um carro e inclinei o bilhete pra frente, a luz do poste refletiu nas letras antiquadas e finalmente consegui enxergar direito.

- Você tem fogo? - fui interrompida enquanto estava ainda nas primeiras palavras.
- Eu não fumo.
- Certeza? - insistiu o sujeito.
Foi quando minha atenção foi totalmente desviada para ele. Bermuda, sandália e um camisa simples.
- Você está na frente da luz, pode me dar licença?
- Nunca te vi nesse bar, é a primeira vez que vem aqui? - ignorando o que eu dizia mais uma vez.
- Nunca tinha vindo aqui antes, por causa de cantadas como essa. - Engrossei o tom na intenção de expusá-lo, mas parece que não surtiu efeito.
- O que é isso que você está lendo?
Eu tinha dado as costas e, finalmente, passado os olhos por todo o bilhete. Foi quando várias sensações antigas e sentimentos que havia guardado com muito carinho me toparam.

"Quantas vezes, Amor, já te esqueci, para mais doidamente me lembrar, mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar, mais a saudade andasse presa a mim!"


Quando me virei consegui enxergar as mãos que nem em mil vidas eu deixaria de reconhecer. Me dei conta de que a letra não havia mudado nada, seu rosto também não.
- Acho que você não me reconheceu por causa da barba por fazer. - Falou o ex-desconhecido abrindo um sorriso no rosto e despertando outro maior ainda no meu.

Eu nasci e morei até meus 15 anos numa cidade no interior do Rio de Janeiro. O dia que mais havia chorado em toda a minha vida, foi o dia em que deixei minha cidade natal para trás. Meus pais haviam sido transferidos para Salvador. Claro que ninguém gosta de mudanças, mas o que mais doeu foi a minha (estúpida) decisão de não me despedir. Nos conhecemos na escola, ainda crianças, e ele foi o meu primeiro amor, o mais puro e o que até hoje não havia esquecido. Impressionante como André encantava as pessoas desde pequeno. Todas as pessoas gostavam de estar com ele, e eu pensei que doíria muito deixar aquele que foi o meu amuleto durante toda a minha adolescência pra trás.

- Você não lembrou de mim ainda?! Pensei que ainda gostasse desse poema.
- Eu... lembrei... do poema... Não! Digo... adorei você... não, não... é... lembrei de você sim, André, deixe de coisa!
- Parece que você viu um fantasma. Depois de quase dez anos e você não me vai me dar sequer um abraço?

Só não senti a sensação do coração acelerar porque eu havia perdido o meu no Rio e acabara de reencontrá-lo, junto ao meu amuleto. Que sorte a minha.



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